terça-feira, 22 de julho de 2014

Fizemos os dias assim


Um avião. Muitos aviões, e helicópteros, e tanques, e viaturas blindadas de todos os tipos. Um míssil. Muitos mísseis, e bombas, e morteiros, e granadas, e metralha, e projécteis de todos os tamanhos e feitios. 298 inocentes barbaramente assassinados de uma só vez nos céus da Ucrânia. Mais de 600 inocentes, mais do dobro, barbaramente assassinados em Gaza num massacre com mais de duas semanas, e mais de 11 mil feridos, e mais de 7500 desalojados que perderam tudo, e mais de 65 mil refugiados, e haverá ainda mais mortos, e haverá ainda mais feridos e haverá ainda mais desalojados  porque a chacina vai continuar. Em Gaza, não há para onde fugir

O mundo que condena, e bem, sem poupar nas palavras, os criminosos que assassinaram os 298 passageiros do avião da Malaysia Airlines  que se despenhou na Ucrânia, o mesmo mundo que baixa a voz quando fala da “profunda preocupação” que lhe despertam os crimes de guerra que Israel continua a cometer em Gaza, é o mundo dos Estados Unidos, o mundo da NATO dos Estados Unidos, o mundo da Europa dos Estados Unidos, o mundo dos negócios de guerra dos Estados Unidos e amigos dos Estados Unidos que põem mísseis nas mãos de terroristas que passam a ter a capacidade de abater aviões a 10 mil metros de altitude e que apoiam incondicionalmente o terrorismo de Estado de Israel. Podem? Podem.

É o mundo dos Cavacos que, na ausência de interesses económicos envolvidos, se vão safando condenando, e bem, as atrocidades cometidas por regimes como o norte-coreano, mas que não regateiam apoios quando o regime assassino em causa tem como tradição distribuir vantagens económicas entre aqueles que lhes dêem cobertura, como a que Portugal deu à ditadura que mata e rouba todos os dias na Guiné Equatorial, país que nem sequer fala português, na sua adesão à Comunidade de Países de Língua portuguesa. Podem? Pois claro que podem.

E podem porque o mundo está cada vez mais giro, cada vez mais zen, cada vez mais light. A sua consciência ética mudou-se para a parte mais smart do último grito da tecnologia. Quem tem um smart phone já não precisa de se chatear com coisas chatas e complicadas. Os aparelhos estão de tal forma aperfeiçoados que os seus donos já nem têm que se dar à trabalheira sequer de pensar, basta ficar a olhar para o mundo, o aparelho mostra-o tal e qual ele é, em altíssima definição. Os bichinhos fazem tudo sozinhos. Ainda não corrigem automaticamente detalhes estéticos de povos mais escuros e feios e ainda não existe algoritmo capaz de calcular a probabilidade do avião que transporta o seu dono poder vir a ser abatido por um míssil perdido, é certo, mas, para além de não ser nada connosco,  nada disto se vê ou acontece todos os dias, não é verdade? Talvez numa próxima versão do sistema operativo, é estar atento. E ir partilhando umas frases do Dalai Lama, o horóscopo, umas mensagens carregadas de energias positivas e uns quantos vídeos divertidos para ganhar uns "gostos" enquanto o próximo modelo não aparece no mercado. Sempre ajuda a passar o tempo.

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