quinta-feira, 3 de julho de 2014

Dois retratos

Futilidade, alheamento, défice de cidadania, as coisas de gente que faltam à nossa gente. Um destes dias, logo pela manhã, numa mesa de café ao lado da minha, duas comadres conversavam sobre a vida. A minha atenção centrou-se nelas quando a primeira começou a comentar com inveja a boa vida e o palácio de alguém que enriqueceu do nada apenas por se ter tornado testa de ferro de um figurão envolvido em negócios escuros. A mesma atenção desviou-se delas depois da segunda comentar com a mesma inveja boçal – “quem me dera, ia logo “ – ter ouvido falar que há para aí quem pague férias em paraísos fiscais ao felizardo que se disponha a retribuir levando somas de dinheiro a depositar no destino. Pelo meio, o mesmo “quem me dera” aplicado ao Iphone do esperto que enriqueceu do nada, o sonho partilhado por ambas na urgência da sua satisfação, “aquilo é tão fixe que até dá para tirar uma foto e publicá-la no facebook no segundo a seguir”. Voltei a encontrar as duas comadres nos dois retratos que abaixo republico. Leiam com atenção. Pode ser que também encontrem alguém conhecido.



«Olá. Se calhar ainda não me conheces, mas eu sei que queres saber o que é que eu acabei de comer. Foi isto. Já viste? Por favor vê. É importante. Está aqui. Já viste? Se não vires aqui, também podes ver em todas as redes sociais, onde as coisas que eu transformo em cocó vivem eternamente na nuvem virtual, mesmo depois do pártenon ruir e da humanidade se extinguir. O meu softcake gourmet é agora imortal.


Se não sabes quem eu sou, não sabes o que estás a perder. Eu sou o filho da puta mais moderno que o mundo pós-moderno já pariu: pontuo as minhas frases com anglicismos como o Duarte Marques pontua as dele com vírgulas; Estás a falar comigo e eu de repente chuto-te com um overthinking, ou um awkward, ou um overrated e tu ficas a pensar “wow… este gajo é mesmo modernaço!”. É isso mesmo. Eu estou para a humanidade como o estrangeirismo para a língua e para a atualidade como o Rococó para o Barroco. Eu sou o Barroco moderno e cocaínado. Eu não como queques, como cupcakes. Eu sou o yuppie português. Eu sou mais que barroco, sou bacoco.


O que é um yuppie? Yuppie = winner + vaidoso² + ¼ hipster × pequeno-burguês ÷ alienado. Sou meio homem, meio marketing, meio business plan e a minha vida é uma miséria com um filtro de instagram. Vivo para mostrar ao mundo como sou feliz e bonito e interessante. Sou uma puta de likes e preciso de mostrar-me perfeito como um produto publicitário de uma revista de moda, como um modelo de mim próprio. Como o meu próprio Deus. Porque eu adoro quem eu sou e adoro tudo sobre mim. Porque eu sou o centro do meu mundo. Mas olha, não penses que sou egoísta. De vez em quando até ofereço um portátil a uma criança africana ou expresso a minha ideologia na loja do comércio justo.


Às vezes, quando leio um post sobre a perseguição dos homossexuais no Chade, até me passo e digo “que se foda o sistema”. Mas que não se foda muito. Só um bocadinho. De uma forma não ameaçadora e muito non-violent, ok? Só o suficiente para partilhar um vídeo de uma gaja que viveu um ano sem dinheiro para nos absolver dos pecados colectivos do consumismo. Era isso que eu também queria fazer se não fosse um monte de merda sem coragem: fugir da sociedade e viver só com bichos, porque os humanos são todos uma merda. Todos menos eu.


Na verdade, o meu objetivo na vida até é mudar o mundo. Através do design. E para mim, design é comprar merdas no IKEA, chamar vintage à mobília do lixo e um look clean a paredes brancas. Eu sou o apóstolo português do Mark Zuckerberg e o Steve Jobs reencarnado no corpo de um analfabeto licenciado. Eu sei que o problema deste país é a estupidez. A estupidez em geral, a dos outros, a estupidez do povo que não sabe o que é o gmail. É por isso que o país está como está! Porque a referência ainda é o Salgueiro Maia e não o Kim Dotcom.


Mas não é a política que faz bater o meu i-coraçãozinho imbecil. Eu quero lá saber se os correios são privatizados ou se o novo código do laboral passa. Eu voto PAN ou Marinho Pinto. Eu era o gajo que cantava “Jota Pimenta forever”, o primeiro na fila para a exposição do mundo português e o tipo que o Buiça teve que empurrar da frente para matar o rei.


Não importa que pronuncie uáda fáque e tevisão: Eu tenho um mestrado em business solutions numa privada, onde aprendi a efectuar em vez de fazer, a visualizar em vez de ver, a capacitar em vez de preparar, a recalibrar em vez de mudar e a repetir em vez de pensar. Quando escrevo, não páro até ter arranjado forma de usar as palavras “stakeholders”, “dinâmica” “globalizado”, “exportações” e “flexível” porque eu sou um winner, compreendes?! Cresci com os meus pais a dizerem-me que podia ser qualquer coisa e prometeram-me a vida toda que sou especial. E malgrado a minha ambição seja um tipo particular de demência, estou sempre a esbarrar com esta sociedade demasiado estúpida para me apreciar. Não faz mal, o facebook não precisa de saber: Eu sou a personagem principal de um romance incrível, narrado com voz de robô, em que eu estou sempre ao pé de uma piscina, com o meu fato de casamento e óculos escuros à patrão.

Eu sei o que estás a pensar: “Este gajo é o maior”. Mas não sou o maior, amigo. Sou awesome. Que em inglês bimbo quer dizer que sou o glacê sem o bolo e o deslumbramento pelo novo; uma máquina de comprar coisas e consumir atenções, um embrulho enorme com uma pastilha gorila lá dentro. Eu sou o yuppie português.» –  António Santos, no Manifesto 74.


«Portugal poderia ter sido um território fértil para Agatha Christie. O seu detective, Hercule Poirot, teria aqui encontrado culpados para todos os gostos. Seja Paulo Bento, o Tribunal Constitucional, José Sócrates, a Constituição, Passos Coelho, Paulo Portas, Ricardo Salgado, a troika, o FMI e Bruxelas. Ou o árbitro. Os culpados são sempre os outros. Porque a culpa, em Portugal, morre sempre solteira. É um milagre exclusivamente nacional: ignora-se e esquece-se. Arquiva-se. A culpa deveria servir para se tirarem lições dos erros. Mas aqui encena-se a análise do que falhou e repetem-se as mesmas fórmulas na próxima oportunidade. (…) O historiador Tacitus, descrevendo os romanos, disse um dia: "Eles criaram uma terra desertificada e deram-lhe o nome de paz". É essa paz que está a desfazer este regime.» – Fernando Sobral, no Negócios, via Joana Lopes.

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