terça-feira, 22 de julho de 2014

Como fazer um parvalhão cair do cavalo

Foto: Secundária Rodrigues de Freitas, no Porto (Público)

Nuno Crato quis voltar à carga com uma prova de avaliação que nada avalia mas que serve para eliminar docentes da lista dos abrangidos pela decisão do Tribunal Europeu de obrigar o Estado português a parar com o abuso que durante décadas condenou profissionais a andarem uma vida inteira de casa às costas daqui para ali com contratos a prazo. Apostou que poderia impô-la com esperteza saloia e anunciou a data da sua realização com uma antecedência suficientemente curta para impedir que os sindicatos convocassem novamente uma greve que desse aos professores escalados para vigiarem a prova a justificação da falta de comparência à vergonha de colaborarem com o Governo na humilhação dos seus colegas. Erro de cálculo. Os sindicatos convocaram plenários que também servem na perfeição como justificação de faltas para todas as escolas onde hoje se realizariam as provas. De nada serviu a Crato tentar proibi-los, porque tudo indica que os plenários se realizaram em número suficiente para que também não seja hoje que o ministro da falta de vergonha cante vitória.
Mesmo em férias, não obstante haver ovelhas negras que envergonham a classe, os professores conseguiram mobilizar-se e mostrar aos restantes servidores do Estado como se faz para fazer um ministro parvalhão cair do cavalo: um por todos e todos por um. E bastante falta faz recordá-lo. À notícia de ontem de que o Ministério das Finanças deu indicações aos organismos públicos para inscreverem nas suas propostas de Orçamento apenas 80% do valor das remunerações certas e permanentes do último mês antes da reposição dos cortes a que o Governo foi obrigado pelo Tribunal Constitucional, isto é, o Governo prevê cortar em 2015 ainda mais 20% do que aquilo que deixou de poder cortar a partir de 31 de Maio, junta-se a notícia de hoje de que os dirigentes dos serviços públicos têm até 22 de Agosto para identificarem o número de trabalhadores que querem enviar para a mobilidade especial ou com os quais pretendem rescindir contrato no próximo ano. Cortes sobre cortes, Tratado Orçamental, austeridade sobre austeridade para todo o sempre. Há quem prefira continuar a acreditar que não está a acontecer nada.


Vagamente relacionado: de acordo com dados do Eurostat divulgados hoje, Portugal tinha no primeiro trimestre do ano uma dívida próxima dos 221 mil milhões de euros, mais sete mil milhões do que nos três meses anteriores e um valor que correspondia a 132,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Na comparação entre o primeiro trimestre deste ano e o do ano passado, a subida portuguesa é ainda maior. O país tinha então uma dívida de aproximadamente 209 mil milhões de euros, menos 12 mil milhões do que agora, o que significava 127,4% da riqueza produzida, um valor 5,5 pontos percentuais abaixo do registado em 2014. Com estes números, Portugal registou o terceiro maior crescimento de dívida na União Europeia em termos de percentagem do PIB. A dimensão da dívida portuguesa face ao PIB coloca o país também no terceiro lugar dos Estados da UE com um rácio mais desfavorável. Em primeiro está a Grécia, com 174,1%, e em segundo surge a Itália, com 135,6%.


Ainda mais vagamente: Rui Rio, ex-presidente da Câmara do Porto, e António Costa, actual presidente da Câmara de Lisboa e candidato a líder do PS, defenderam esta terça-feira um entendimento de regime ou um acordo a dez anos entre os protagonistas políticos. "A maioria absoluta [como defendeu António Costa] é o mais importante, mas pode não ser o garante fundamental para um acordo de regime ou a dez anos. O importante é a capacidade dos protagonistas porem o interesse nacional acima de tudo e não o interesse partidário, assim pode-se conseguir um entendimento de regime", afirmou Rui Rio. Concordando com o ex-autarca do Porto, António Costa disse que "a questão básica tem a ver com a confiança".


E nada a ver com: Durante a reunião da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários que teve lugar esta Terça-feira no Parlamento Europeu, em resposta à Deputada Marisa Matias, o representante da Comissão Europeia afirmou, relativamente ao BES, que "o passado [anterior a Julho do próximo ano] terá que ser abordado com os instrumentos do passado". Olivier Guersent, director adjunto da Direcção Geral do Mercado Interno e Serviços, quis assim deixar bem claro que, com a ressalva de que esse era um assunto da competência do Conselho e dos Governos, nem o instrumento do Mecanismo Único de Resolução, nem os da Directiva de Resolução Bancária poderão ser utilizados no caso do BES, ou seja, serão os contribuintes a pagara herança Espírito Santo.


4 comentários:

fb disse...

Nuno Crato quis voltar à carga com uma prova de avaliação que nada avalia mas que elimina docentes da lista dos abrangidos pela decisão do Tribunal Europeu de obrigar o Estado português a parar com o abuso que durante décadas condenou profissionais a andarem uma vida inteira de casa às costas daqui para ali com contratos a prazo. Apostou que poderia impô-la com esperteza saloia e anunciou a data da sua realização com uma antecedência suficientemente curta para impedir que os sindicatos convocassem novamente uma greve que desse aos professores escalados para vigiarem a prova a justificação da falta de comparência à vergonha de colaborarem com o Governo na humilhação dos seus colegas. Erro de cálculo. Os sindicatos convocaram plenários que também servem na perfeição como justificação de faltas para todas as escolas onde hoje se realizariam as provas. De nada serviu a Crato tentar proibi-los, porque tudo indica que os plenários se realizaram em número suficiente para que também não seja hoje que o ministro da falta de vergonha cante vitória.

FERNANDO FERNANDES disse...

Se são bons não têm que temer a avaliação. Se não são, vão para casa, pois na escola não fazem falta nenhuma. Vão trabalhar malandros! Isto não se aplica á generalidade dos professores que eu sei, por experiência própria com os meus filhos, que verdadeiros exemplos de competência e dedicação. Agora os amigos do comuna bigodes que já não deve saber - se é que alguma vez soube - o que é dar uma aula em condições, apenas pergunto: se os polícias dão pau em tanta gente porque não a esta gentalha??? Só se perdiam as que caíssem no chão.

Filipe Tourais disse...

Para além de todos eles já terem sido avaliados nas respectivas licenciaturas e mestrados, a tal "avaliação" avalia parvoíces. Experimente ir ler o enunciado e tome consciência da parvoíce que acaba de escrever.

Ofiusa disse...

Esta prova nada tem a ver com a avaliação de docentes. Mal a comparar, é como avaliar a aptidão para economia dos gestores com base num jogo de monopólio (se calhar, mesmo assim, alguém no BES chumbaria...).

Se há profissionais que são bastante avaliados, são os professores contratados: desde uma formação de 5 a 6, passando por avaliações no final de todos os contratos. Avaliar é algo sério, não é o ridículo desta prova.