quinta-feira, 12 de junho de 2014

Uma democracia geneticamente modificada

A Monsanto, líder mundial no mercado dos transgénicos, já decide sobre as nossas vidas

Porque os cidadãos o naturalizaram e deixaram de ver no voto a ferramenta que têm ao seu dispor para punir exercícios do poder em contra-mão com as suas vontades, as democracias ocidentais estão hoje de tal forma adulteradas que a grande maioria se riria da candidatura que se apresentasse a eleições com o compromisso de consultar previamente os cidadãos antes de avançar para um aumento de impostos, para um código laboral que liberalizasse despedimentos ou para encerramentos em massa de escolas e unidades de saúde. E os governantes deviam estar obrigados a fazê-lo sempre que quisessem avançar para medidas ou contrárias ou que não constassem do programa eleitoral com que se fizessem eleger. Como sabemos, não é assim. Os cidadãos desleixam-se cada vez mais e vão abdicando de fazer valer as suas vontades, os governantes vão-se desleixando cada vez mais e também prescindem de dar o seu melhor para lhes corresponder. Foi à sombra deste binómio de desleixos que evoluiu a integração europeia, foi graças a ele que foi possível aprovar sem qualquer discussão pública e sem referendo prévio todos os tratados que puseram as vidas de milhões de europeus a serem decididas por eurocratas não eleitos.

E agora já estamos no outro extremo. Depois de quatro anos de intenso labor, os Ministros do Ambiente dos 28 aprovaram esta Quinta-feira uma norma que dá liberdade aos estados membros para proibirem o cultivo de transgénicos nos seus territórios invocando razões como o impacto socioeconómico, ordem pública, ordenamento do território ou motivos de política económica ou agrícola. E a novidade começa aqui: segundo os termos em que o texto foi aprovado, o estado membro notifica a Comissão da sua intenção de não constar na lista de países onde o cultivo do transgénico é permitido e, por sua vez, esta irá perguntar à multinacional que o produz se permite que o cultivo do transgénico em causa passe a ser proibido no estado que o solicitou. Apenas se a multinacional manifestar o seu total interesse em deixar de vender para esse país é que a proibição avança. Está-se mesmo a ver quantas proibições vai haver. As multinacionais a mandarem na Europa onde antes mandavam os cidadãos. Agora já nem se dão ao trabalho de disfarçá-lo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Parece-me estranho ser assim tão simples para a Monsanto. Assim tão óbvia a Ditadura da Monsanto. Costumam disfarçar.
Tb acho estranho não ser referido nas razões da recusa a SAÚDE pública e ambiental (biodiversidade).

Filipe Tourais disse...

Est
Estão na notícia, mas ninguém as fiscaliza. Por isso não as incluí.