terça-feira, 17 de junho de 2014

Semana de cortes, semana de truques



Manda a tradição dos últimos Governos que semana de reduções salariais na função pública seja também semana de grande azáfama tanto para os profissionais da propaganda dos gabinetes ministeriais que trabalham os mitos como também para aquela espécie de jornalistas que reproduzem integralmente os recados que os primeiros querem dirigir à opinião pública.
Ontem, como vimos aqui, a notícia que puseram a circular incidia sobre o mito do privilégio do funcionário público relativamente ao trabalhador do privado. E hoje é a vez do mito do funcionário preguiçoso e o recado é “dois em cada três funcionários públicos de baixa estavam aptos para trabalhar em 2013”, sem dúvida um título bastante mais sugestivo do que aquele que o rigor jornalístico escreveria na sua vez: “dois em cada três funcionários públicos de baixa foram considerados aptos para trabalhar”. O primeiro título diz que estavam mesmo aptos para trabalhar. O segundo título, pelo contrário, deixa em aberto a possibilidade de ter havido funcionários que, apesar de não estarem aptos para trabalhar, foram mandados trabalhar assim mesmo, situação que não tem nada de original e tanto afecta trabalhadores do público como colegas do privado.
E há casos que são um verdadeiro terror. Por exemplo, este, do tempo de José Sócrates: “A Caixa Geral de Aposentações (CGA) recusou a reforma por invalidez a uma professora de 50 anos a quem foi retirada parte da língua devido a um cancro, anulando uma decisão da junta médica que a tinha declarado permanentemente incapaz”. Ou este, já do tempo do actual Governo: “A Junta Médica da Segurança Social do Porto retirou a baixa médica a um carregador de louça de 55 anos que tem uma inflamação nos joelhos e só consegue andar com muletas”. A Web vai-se enchendo de notícias sobre malta preguiçosa que só quer estar em casa no bem bom sem fazer nenhum, consequência de sucessivas governações apostadas em aumentar a produtividade  do país pondo doentes a trabalhar e obrigando maiores de 60 anos a permanecer no activo.

3 comentários:

Francisco Trindade disse...

Mais um óptimo texto do Filipe que irei colocar no meu blogue, mas o que é triste é que não consiga tirar ilações para o futuro...Mas cada um tem as limitações que tem e eu tenho naturalmente as minha e não serão poucas...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Vital Moreira, no Causa Nossa, também alinha na onda de chamar madraços aos funcionários públicos. Vou levar este texto para o FB, com dedicatória especial ao "professor de Coimbra".

Filipe Tourais disse...

Neste país, só trabalham o Vital Moreira e os amigos dele. Aqueles pareceres pagos a preço de salário anual de meia dúzia de funcionários públicos diz bem do trabalho que dão.