terça-feira, 24 de junho de 2014

Gostei de ler: "A saúde de Churchill não foi assunto público, felizmente"


Todos os jornalistas têm sido bombardeados nos últimos anos com boatos sobre a saúde de Cavaco Silva. De uma das vezes, a "informação" que me chegou incluía o nome do hospital, o número do quarto e o dia do internamento. Tudo falso, claro. A conversa voltou depois do mal-estar do dia 10 de Junho - quem nunca desmaiou na vida pode ter ficado impressionado, mas quem conhece o poder do "chilique", com ou sem desmaio adjacente, não se impressiona. No sábado, o "Expresso" fez um excelente trabalho sobre se a saúde dos Presidentes deve ser ou não um assunto público. O porta-voz do PS para a saúde, Álvaro Beleza, defende que sim.

A cultura e a imprensa anglo-saxónica são as melhores do mundo, excepto em alguns assuntos em que são as piores do mundo. E aqui inclui-se a paranóia com a transparência total - incluindo assuntos como a saúde, a moral sexual e outros.

É interessante reflectir sobre a obsessão com os "políticos com paredes de vidro" à luz da Segunda Guerra Mundial. Se a imprensa britânica fosse, nos anos 30, o que é hoje, nunca Churchill teria sido primeiro-ministro - e na América, Roosevelt, na sua carreira de rodas e no seu casamento infeliz, teria muito mais dificuldades em se impor.

O livro de memórias do médico de Churchill - que Max Hastings, biógrafo do ex-primeiro-ministro britânico, considera uma fonte bastante fiável - regista as suas depressões constantes e em alguns casos muito violentas. Churchill chamava a essas crises a visita do cão negro ("black dog") e em muitas ocasiões não saía da cama. Se o excesso de whisky era testemunhado por todos os que conviviam com o primeiro-ministro (os diários de alguns chefes militares recordam reuniões a altas horas da manhã com Churchill já completamente bêbado), as depressões eram menos públicas. Entre a comunidade psiquiátrica é hoje corrente a ideia de que Churchill sofria de doença bipolar.

Evidentemente, se a imprensa britânica tivesse tido acesso ao boletim clínico de Churchill, teria sido muito mais fácil a linha apaziguadora com Hitler vencer no interior do governo britânico. Churchill foi um herói do nosso tempo à custa de ainda não ter sido inventado o escrutínio do corpo dos políticos. A saúde não dá qualquer garantia no exercício de um cargo político nem a falta dela, genericamente, o prejudica. Em que é que a presidência de Mitterrand foi afectada pelo cancro? Os casos em que um cargo público pode ser prejudicado por uma doença são raríssimos. O resto é mero voyeurismo.» – Ana Sá Lopes, no I.

1 comentário:

Anónimo disse...

A saúde do Aníbal só deveria ser assunto público se, como alguns afirmam, houvesse uma diminuição das capacidades mentais que impedisse o desempenho do cargo.
Caso contrário, não interessa.