sábado, 28 de junho de 2014

Gostei de ler: "Lições há muitas, professor Cavaco"


«Cavaco Silva recebeu na quarta-feira o seu homólogo alemão, Joachim Gauck, para lhe dizer que o país aprendeu "a lição". Ao dominador alemão, que nos veio lembrar do "favor" feito ao país, responde o dominado, com obediência masoquista: "Aprendemos a lição". São sinais dos tempos. E longe vão aqueles em que Cavaco celebrava com orgulho o "dia da raça". Os ventos mudaram, agora sopram lá do Norte da Europa, e o orgulho pátrio deu lugar a outra coisa. É o orgulho do governante colonizado que, confundindo humildade com humilhação, volta ao discurso dos pobres mas honrados, ou, na verdade, honrados porque pobres.

  Mas, afinal, que mal fez este povo para merecer tanto castigo? Que lições são estas que temos que aprender, custe o que custar? Antes de lá chegarmos, vale a pena recapitular o que terá sido a década anterior à crise, a da tal "lição".

  Durante toda a década anterior à crise financeira a dívida pública portuguesa em percentagem do PIB foi inferior à alemã, e muito inferior à média europeia. Os salários, esses sempre foram inferiores a qualquer média, seja a da OCDE, da União Europeia ou da zona euro. O salário médio português é muitíssimo  inferior ao salário mínimo em vigor na maioria dos países europeus. Benefícios sociais em percentagem do PIB? Em 2000 eram 18%. Na zona euro? 25%. E na Alemanha? 28%. E assim se manteve a relação durante toda a década. As despesas em educação, na década de 2000, permaneceram estáveis, as da saúde aumentaram um ponto percentual no PIB - um dos ritmos de crescimento mais baixos da Europa. O tão propalado Estado gordo que serviu de justificação à austeridade era, feitas as contas, um Estado de dimensões pequenas, porventura até demasiado pequenas para o atraso do país em qualificações, serviços públicos e investimento no setor produtivo. O povo que viveu acima das suas possibilidades era, afinal, um dos mais pobres da Europa e com maiores desigualdades de rendimento.

A crise que vivemos tem, portanto, outras raízes. Dizem os registos mais recentes que, em 2008, se deu a maior hecatombe financeira de que há memória desde 1929. Sabe-se também, de fonte segura, que a culpa se deveu à especulação que surfou livremente a desregulamentação que os moralistas de hoje advogaram no passado. Mais, que este sistema insustentável de endividamento e ganhos especulativos se alimentou das desigualdades sociais. Então para quê tanto moralismo, senhor Presidente?! Para quê, então, esta visão do empobrecimento de um país e de um povo como expiação coletiva de uma suposta "culpa" social?

Bom, porque se dissessem ao país que a austeridade serve, de facto, a recuperação dos lucros e do capital financeiro perdidos durante a crise, ninguém estaria disposto a aceitá-la. Se alguém dissesse que a dívida pública resulta de uma perigosa combinação entre especulação e recessão causada pela própria austeridade, e que os juros são transferências diretas para os bancos internacionais, quem aceitaria sacrificar o sistema nacional de saúde em nome do seu pagamento? Se se soubesse que a Alemanha ganha muito mais com a permanência de uma periferia bem comportada na União Europeia do que gasta em mantê-la lá, quem chamaria "solidariedade" a este empréstimo? O discurso, cá, do país que viveu acima das suas possibilidades, é a outra face do discurso chauvinista, lá, sobre os preguiçosos do sul da Europa. Cavaco Silva, com o seu falso moralismo, é o narrador social, cá, desta estratégia. A ele, entre outros, cabe o papel de convencer o povo que os sacrifícios não servem para salvar os bancos, mas para salvar o país de si mesmo, dos seus vícios e pecados passados.

Quer isto dizer que Portugal não sofria (e não sofre) de problemas estruturais absolutamente independentes da crise financeira? Não. É uma economia pobre porque é a economia de um país de gente pobre. Uma economia demasiado dependente do exterior, que nem sempre fez um bom proveito dos fundos europeus. Uma economia que nunca fez a transição do seu modelo de baixos salários assentes em trabalho pouco qualificado para uma industrialização inteligente. É também um país estruturalmente dominado por uma elite económica privada que parasita o Estado, as suas empresas e monopólios, que troca administradores por ministros, negócios por favores, favores por poder. Só o gang BPN, curiosamente criado e dominado pelo círculo político mais próximo de Cavaco Silva, já custou ao país 5000 milhões de euros.

Acontece que a austeridade não resolve qualquer um dos problemas estruturais portugueses. Pelo contrário, Cavaco Silva, a governar desde 1980 e algures no poder em 20 dos 40 anos de democracia, tem sérias responsabilidades em muitos deles. Qual é então a grande lição que devemos tirar, senhor Presidente?» - Mariana Mortágua, no Expresso.

1 comentário:

fb disse...

Se dissessem ao país que a austeridade serve, de facto, a recuperação dos lucros e do capital financeiro perdidos durante a crise, ninguém estaria disposto a aceitá-la. Se alguém dissesse que a dívida pública resulta de uma perigosa combinação entre especulação e recessão causada pela própria austeridade, e que os juros são transferências diretas para os bancos internacionais, quem aceitaria sacrificar o sistema nacional de saúde em nome do seu pagamento? Se se soubesse que a Alemanha ganha muito mais com a permanência de uma periferia bem comportada na União Europeia do que gasta em mantê-la lá, quem chamaria "solidariedade" a este empréstimo? O discurso, cá, do país que viveu acima das suas possibilidades, é a outra face do discurso chauvinista, lá, sobre os preguiçosos do sul da Europa. Cavaco Silva, com o seu falso moralismo, é o narrador social, cá, desta estratégia. A ele, entre outros, cabe o papel de convencer o povo que os sacrifícios não servem para salvar os bancos, mas para salvar o país de si mesmo, dos seus vícios e pecados passados.