quinta-feira, 26 de junho de 2014

Gostei de ler: "As más contas da mercearia da senhora Thatcher"

Foto: festejos em toda a Inglaterra no dia da morte de Margaret Thatcher.


«Margaret Thatcher tinha um fetiche, era o sadomonetarismo. O termo foi mesmo cunhado no início dos anos 80, para descrever a obsessão orçamental e monetária da Dama de Ferro, que tornou o Reino Unido um centro financeiro em troca de mais 2 milhões de desempregados. Para justificar o fetiche, Thatcher fez o melhor uso do seu conservadorismo popular. Com ele criou uma imagem à imagem do seu pai, respeitado merceeiro, e com ela muitas outras. Criou imagens sobre a economia do país a partir de exemplos da economia doméstica.


Acontece que um país não funciona nem um bocadinho como a mercearia do Sr. Alfred Roberts. Um exemplo? Para o Sr. Alfred seria muito útil se o seu fornecedor entrasse num processo de deflação, uma quebra generalizada nos preços que pratica. Poderia assim baixar os seus próprios preços, vendendo mais barato (e até com mais lucro) aos clientes da mercearia Thatcher. Mas se isto funciona para o sr. Alfred, por que não haveria de funcionar para o resto da economia? Do ponto de vista doméstico, supermercados, restaurantes, todos têm incentivos para baixar os preços. Do ponto de vista doméstico, também faz sentido esperar. Empresas adiam investimentos, famílias adiam consumos maiores, bancos adiam empréstimos, tudo espera por melhores negócios. Todos adiam aquilo que faz crescer a economia e, com isso, adiam os impostos que pagam, criando problemas nas contas públicas. 


Para quem está endividado a situação complica-se ainda mais. Com a queda dos preços na economia, a casa que servia como garantia ao empréstimo perde valor, e a dívida aumenta em proporção. O mesmo acontece com todas as dívidas do setor empresarial que tinham ativos como garantia. Quanto mais endividada a economia, pior. Só há três formas de compensar o aumento do peso da dívida: vender ativos, o que reforça ainda mais a queda dos preços; pedir novos empréstimos, o que aumenta a dívida; aumentar a poupança, o que reduz ainda mais o investimento e o consumo. Todas estas alternativas criam aquilo a que Keynes chamou uma preferência pela liquidez. Bancos e grandes empresas preferem guardar dinheiro a gastá-lo. A correspondente falta de liquidez na economia leva os restantes negócios e famílias à falência, provocando uma tendência recessiva.


Este processo, iniciado - em teoria - a partir da economia de mercearia de Thatcher, foi descrito e cunhado por Irving Fisher num artigo chamado The Debt Deflation Theory of Great Depressions (1933, Econometrica). É por tudo isto que a deflação é tão ou mais perigosa que a inflação e, olhando para os dados mais recentes, tanto da zona euro como de Portugal, temos razões de preocupação. Por toda a Europa a austeridade, o desemprego e a obsessão exportadora criaram pressões deflacionistas, que se sentem mais nos países periféricos, onde tudo o resto também é mais forte. Nos últimos anos, o único dinheiro que entrou na economia foi enterrado nos bancos em apuros, que o guardaram ou usaram para reciclar maus balanços. 


  Há quem diga que a deflação é importada, porque o euro está forte. Nada mais errado. Foram as políticas europeias que fizeram o euro forte, as mesmas que causam a deflação. Há quem diga que a deflação na periferia faz parte do processo para reganhar competitividade no euro. Nada mais falso. A não ser que queiramos atrair capitais para novas bolhas financeiras, o fator preço não deveria ser determinante para as exportações. De qualquer das formas, a única forma saudável de o fazer seria ter a Alemanha com um forte processo de inflação, e não a periferia em deflação.


O BCE pode e deve contrariar esta tendência. Draghi optou por continuar a inundar os bancos com liquidez e esperar que estes a passem às empresas (este assunto dava um outro artigo). O risco é que o dinheiro nunca lá chegue e sirva antes para novas bolhas especulativas. Ou que, chegando lá, sirva para trocar dívida velha por nova, uma vez que a falta de procura não permite às empresas vender mais.


A alternativa? Que esse dinheiro seja utilizado para um plano de investimentos a partir do Banco Europeu de Investimento; que esse dinheiro sirva para comprar dívida directamente aos Estados, financiando políticas públicas expansionistas e de criação de emprego e salários. Mas isso era se a Europa não estivesse a ser governada como se fosse a mercearia do pai da senhora Thatcher.» – Mariana Mortágua, no Expresso.

1 comentário:

fb disse...

A alternativa? Que esse dinheiro seja utilizado para um plano de investimentos a partir do Banco Europeu de Investimento; que esse dinheiro sirva para comprar dívida directamente aos Estados, financiando políticas públicas expansionistas e de criação de emprego e salários. Mas isso era se a Europa não estivesse a ser governada como se fosse a mercearia do pai da senhora Thatcher.» – Mariana Mortágua, no Expresso.