quarta-feira, 11 de junho de 2014

Era uma vez uma linda carochinha


Quem não se lembra da história da carochinha que nos andaram a contar nestes últimos três anos? Se o Tribunal Constitucional chumbasse um Orçamento e dois dias depois os juros subissem umas milésimas nos mercados, pimba, a culpa era do TC. Se fosse convocada uma greve e no dia seguinte os juros aumentassem um niquinho, zás, a culpa era dos sindicatos. Se o Presidente desmaiasse e no dia a seguir os juros subissem um tiquitiquinho, ai, os mercados ficaram nervosos com a instabilidade política que poderia acontecer a seguir. Os juros dos outros países acompanhavam a tendência? Não vinha ao caso. O Governo sempre contou com um exército de trombeteiros que em toda a comunicação social entoavam o toca a portar bem e a baixar a cabeça, que os mercados nunca se enganam e parece não estarem a gostar nada do que estão a ver acontecer por aqui.

Agora, com o TC a chumbar orçamentos, com a maioria a insultar o TC para forçar eleições, com o PS aniquilado a brincar ao quem manda aqui, com a dívida a crescer como sempre cresceu nestes anos de troika e com o PIB a encolher como sempre encolherá enquanto a política oficial continuar a prescindir do investimento público como instrumento de política económica e se limitar a insistir em desmantelar salários, direitos laborais e serviços públicos, os juros vão caindo para mínimos sucessivos de oito anos mercê da bolha que o BCE vai alimentando no mercado monetário.

Portugal colocou nesta quarta-feira 975 milhões de euros em Obrigações do Tesouro a dez anos à taxa de juro média de 3,2524%, menos 0,3228 pontos percentuais que no anterior leilão comparável realizado em Abril. Boa notícia? Para Portugal, excelente notícia. O Governo pode começar a substituir dívida emitida quando os juros estavam muito mais altos, inclusivamente os juros do empréstimo contraído junto da troika, através de novas emissões a juros cada vez menores.

Paradoxalmente, para o Governo, para a maioria que o suporta no Parlamento e para o seu sócio de memorando, acidentalmente na oposição, nem tanto. Todos eles deixam de poder contar com o papão dos mercados que lhes dava liberdade absoluta para imporem a sua agenda de reconfiguração social, ao mesmo tempo que, tarefa impossível, se vêem na necessidade de explicar muito bem explicadinha a história da carochinha que usaram para coagir os portugueses. Lembro-me de, em dado momento, alguém muito pouco recomendável atirar que o país estava muito melhor embora a vida dos portugueses estivesse pior. Ironia do destino, agora, se o país ficar realmente melhor no que toca a juros e a mercados, é a vez do centrão do memorando ficar um bocadinho pior. E acrescento: tanto quanto os portugueses quiserem. É o que lhes vale.

2 comentários:

fb disse...

Paradoxalmente, para o Governo, para a maioria que o suporta no Parlamento e para o seu sócio de memorando, acidentalmente na oposição, nem tanto. Todos eles deixam de poder contar com o papão dos mercados que lhes dava liberdade absoluta para imporem a sua agenda de reconfiguração social, ao mesmo tempo que, tarefa impossível, se vêem na necessidade de explicar muito bem explicadinha a história da carochinha que usaram para coagir os portugueses. Lembro-me de, em dado momento, alguém muito pouco recomendável atirar que o país estava muito melhor embora a vida dos portugueses estivesse pior. Ironia do destino, agora, se o país ficar realmente melhor no que toca a juros e a mercados, é a vez do centrão do memorando ficar um bocadinho pior. E acrescento: tanto quanto os portugueses quiserem. É o que lhes vale.

Anónimo disse...

3,2524% nominal equivale a uma taxa de juro real de 2,93%. Em Janeiro de 2011 taxa real era 3,12% e em Outubro de 2006 a taxa real era 1,274%