sábado, 21 de junho de 2014

É a vida





Foi simultaneamente um dos primeiros sinais do que depois chegou para todos e um teste à capacidade ou incapacidade de indignação com a qual os povos travam ou incentivam os abusos dos seus governantes. Nos idos de 2007, o Governo de José Sócrates reduziu a quase nada os benefícios fiscais em sede de IRS com os quais os trabalhadores portadores de deficiência contavam para fazer face a despesas decorrentes das suas deficiências, que a generalidade dos cidadãos não tem que enfrentar. O sinal que os portugueses então quiseram dar aos seus governantes foi claro. A indiferença foi quase geral. De tal forma geral que, sem sobressaltos de maior, um dos ideólogos do regime de então chegou mesmo a argumentar que a pulverização de um dos poucos instrumentos eficazes na integração da população portadora de deficiências se justificava por ter ouvido dizer que havia falsas declarações de incapacidade passadas por cirurgiões a si próprios, isto é, em vez de identificar e punir todas as situações fraudulentas de pessoas que recebiam indevidamente benefícios fiscais por uma deficiência que não tinham, retiravam-se os benefícios fiscais às pessoas que as tinham e contavam com esse dinheiro para  pagar a reparação da cadeira de rodas eléctrica, o banho diário do paraplégico, o veterinário e a ração do cão-guia. Passaram quase sete anos. É agora a vez de um governante se lembrar de usar o mesmo tipo de argumentação moralista para justificar o encerramento de urgências: "Mais de 90% das urgências, à hora a que foram fechadas, eram para curar bebedeiras. Não vamos pagar horas extraordinárias durante toda a noite a médicos, enfermeiros e técnicos de saúde porque há uns indivíduos que resolvem tomar a bebedeira de vez em quando”, disse Alberto João Jardim na passada Quinta-feira. O mestre das orgias orçamentais, guru das despesas ilegais, ele próprio afamado consumidor de poncha, entende que quem se embebeda perde o direito à assistência médica e por isso todos os que não bebem –  e se não bebem,azarito, comecem a beber – também a perderão. A indiferença solidária que volte a dar-lhe toda a razão.

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