sexta-feira, 13 de junho de 2014

160 dramas pessoais e um desastre colectivo


As regras do jogo. O poder político dita as inevitabilidades, os órgãos de informação repetem-nas quantas vezes for preciso para lhes dar ares de estado de emergência, a plateia assimila-o com a desejada pacatez. O poder político desenvolve uma revolução semântica, a nova terminologia da novilíngua imediatamente começa a ler-se nos jornais e a ouvir-se nas rádios e televisões em notícias que podiam perfeitamente dispensá-la, a opinião pública segue-lhe o espírito. Os Governos abandalham relações laborais e promovem cruzadas contra alegados poderosos interesses corporativos de quem não tem poder algum, muitos jornalistas noticiam-no como “reformas estruturais necessárias”, os portugueses posicionam-se naquele que julgam ser o lado da trincheira que mais lhe convém nestes dias do salve-se quem puder. A economia implode e o desemprego alastra, os governantes culpam cada desempregado da sua situação e apontam-lhe o empreendedorismo e a emigração, a comunicação social enche-se de notícias sobre os temas da moda enriquecidas com reportagens sobre casos de sucesso do fulano que emigrou e do sicrano que montou o próprio negócio, o público deixa-se convencer que estar desempregado não é assim tão mau. Até ao dia em que o desemprego bate à porta e se sente o mundo a desabar sobre a própria cabeça. Vai calhando a vez a todos.

Para surpresa de cada um. Esta semana o desemprego entrou nas casas de 160 jornalistas do DN, JN e TSF. Não conheço pessoalmente nenhum deles, não sei quem foi despedido e quem não foi e não faço ideia qual terá sido o critério de escolha dos que ficaram e dos que saíram, se é que houve outro que não o dos proveitos e custos. Se houvesse justiça neste mundo, os dispensados seriam exclusivamente aqueles  que sempre colaboraram com o poder na guerra de percepções que vai resultando na imposição das regras do jogo atrás enunciadas e, nesse caso, a democracia sairia a ganhar com a limpeza na classe daqueles que asseguram o seu pilar informação. Se o episódio servisse para evitar sequelas futuras, os jornalistas deixariam de comportar-se como quase todas as outras classes profissionais, cada um por si, e a ética profissional, os deveres deontológicos e o espírito de classe encarregar-se-iam de expulsar a concorrência desleal dos maus profissionais pagos a um prato de lentilhas   que vão substituindo os bons, e há muitos, que são postos na prateleira e, dessa forma, também de devolver aos clientes finais do seu trabalho aquele prazer antigo de comprar jornais e revistas. Infelizmente, nem o mundo é justo, nem a generalidade dos jornalistas se diferencia assim tanto dos restantes compatriotas que não dispõem do seu poder de influenciar as percepções dos outros. Foram despedidos mais 160 portugueses. 160 dramas pessoais e um desastre colectivo. O desemprego já está a trabalhar para surpreender os 160 seguintes.

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