domingo, 25 de maio de 2014

Um escândalo de pantufas


A direita que vive à sua sombra e sempre os defendeu põe paninhos quentes, a esquerda que nunca se deixou comprar e sempre os apontou faz o que sempre fez, apontá-los. O primeiro exército é muito mais numeroso do que o segundo nos terrenos onde se faz opinião pública e aquilo que sempre seria um escândalo ruidoso está a passar de pantufas diante dos narizes dos portugueses. Para ilustrá-lo, escolhi dois textos sobre o mesmo tema, um do João Rodrigues, lido por centenas no blogue Ladrões de Bicicletas, e outro do mediatíssimo Pedro Marques Lopes, lido por largos milhares no DN. Aproveito que hoje é Domingo e, em princípio, tempo livre é o que menos falta, para deixar como proposta adicional o documentário «Quando a Europa salva os bancos, quem paga?» (2013), um excelente trabalho do jornalista de investigação do Der Spiegel Harald Schumann. A legendagem em português é fruto do trabalho dos membros de outro blogue, o Aventar. Por alguma razão que não a sua legendagem este tipo de documentários nunca chega ao grande público.


«Com a excepção do trabalho de alguns jornalistas, de que o melhor e mais recente exemplo é o livro de Paulo Pena, a comunicação social, como até Camilo Lourenço reconhece no seu pedido de desculpas, tem sido demasiado timorata na cobertura dos mandos e desmandos do poder financeiro em Portugal. Pudera. É que o dinheiro comanda muito respeitinho e tem propriedades estranhas de inversão para as quais a referência clássica continua a ser Marx. Basta pensar no que também acontece em alguma academia por aí: a que tem cátedras BCP, salas BES e atribui Doutoramentos Honoris Causa e outras honras a banqueiros muito respeitáveis e a quem a próspera economia portuguesa tanto deve; a que propagou a ideia de que os mercados financeiros liberalizados são o máximo da eficiência. Basta pensar na eficiência com que o capital financeiro se transmuta em poder politico, a tal “bancocracia”.

Surge esta conversa a propósito da extraordinária entrevista ao Doutor Honoris Causa Ricardo Salgado feita pelo Negócios e do pouco que se vai sabendo sobre a transformação do Espírito Santo em zumbi, para a qual já chamámos a atenção: na melhor das hipóteses, o próprio Ricardo Salgado atribui os “erros” de gestão à opacidade da estrutura do grupo, às “n” holdings, tudo feito certamente para maximizar a transparência fiscal e regulatória, tudo certamente tolerado pela regulação ligeira, pela trela solta da finança. Aliás, a Espírito Santo Internacional estava sediada no refúgio fiscal do Luxemburgo porque o Espírito Santo está sempre onde estão os portugueses. A naturalidade com que fala do Luxemburgo, sem que haja qualquer pergunta, é impressionante.

 O resto é a impunidade de sempre até à hipotética queda final do que era considerado até há pouco tempo o homem mais poderoso da economia política portuguesa: devemos estar muito agradecidos, segundo Ricardo Salgado, por este nos ter “poupado” dinheiro ao evitar a capitalização estatal. Também devemos estar agradecidos pelos créditos fiscais concedidos, na ordem das centenas de milhões de euros, referidos de raspão. Enfim, vejamos se as propriedades autodestrutivas de um sistema, que também apostou na austeridade, não deitam tudo a perder.» – João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas.


Não devo ter sido o único a ouvir que a grande diferença na relação entre o poder político e o económico em Portugal, da ditadura para a democracia, seria que antigamente era o ditador a definir quem eram os ricos e que agora eram os ricos a decidir quem tinha o poder político. A afirmação é manifestamente exagerada [ai sim, Pedro?], provavelmente incorreta em termos históricos [não me digas, Pedro?] e injusta para a nossa democracia [como eu te compreendo, Pedro, os portugueses adoram os moderadinhos]. É, sobretudo, muito influenciada pelo ambiente atual em que existe a perceção de que o poder económico se globalizou e se sobrepôs de maneira clara ao poder político [tudo normal, portanto, não é, Pedro?]. (...)

Há coisas aparentemente pequenas que dizem muito [então não são pequenas, Pedro]. Sabemos que um líder de um partido está com grandes possibilidades de chegar a primeiro-ministro quando se sabe que vai almoçar com o presidente do banco X ou Y e é certo e sabido que o primeiro telefonema que um recém-primeiro-ministro recebe é de um presidente de um grande grupo económico [então o exagero que apontavas ali atrás não é exagero nenhum, Pedro?].

Vem esta conversa toda [pois, paninhos quentes, Pedro] a propósito, e a algum despropósito, da novela Espírito Santo, que vai tendo a cada dia que passa um episódio mais degradante [só o descobriste agora, foi, Pedro?]. (...)» – Pedro Marques Lopes, no DN.

1 comentário:

Anónimo disse...

Excelente documentário...
Agora percebe-se melhor a formula aplicada no BPN e os apoios aos 4 bancos aflitos (CGD, BCP, BPI e Banif)