quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sinais positivos


Uma boa e uma má notícia. Poderíamos estar a falar de um tratamento inovador regenerador da coluna vertebral que possibilitasse devolver a capacidade de andar a paraplégicos mas que, devido aos seus elevados custos,  as autoridades sanitárias o restringissem a doentes com idade inferior a 50 anos. Seria uma óptima notícia para o doente com 50 anos menos um dia. Pelo contrário, saber da existência de um tratamento que não lhe seria ministrado por ter nascido um dia antes do que devia seria uma péssima notícia para o doente que já tivesse completado os 50 anos no dia anterior ao fixado. Seria cruel. Seria uma monstruosidade. Ainda assim, apesar de cruel e de monstruoso,  o critério da idade desta notícia do futuro é objectivo e de fácil avaliação por qualquer pessoa.
Mas regressemos ao presente. As notícias de hoje, a boa e a má, são ligeiramente diferentes. Mas a questão que suscitam é a mesma: que prioridades e que critérios rigorosos serão aqueles que o infarmed alega para se arrogar o direito de negar a doentes com hepatite C o medicamento inovador que cura 90% dos casos, mesmo os mais graves, que estará disponível em Portugal a partir  de Junho? É de duvidar que sejam outros que não a restrição orçamental da unidade hospitalar onde cada doente seja tratado. Um tratamento de apenas três meses custa 48 mil euros. Em Saúde, é muito. Em SWAPS, em PPPs, em rendas da energia ou em juros são uma ninharia que não paga nem um minuto decidido sem hesitações e sem remorso. O “não há dinheiro” repetido por governantes e respectiva máquina mediática aplica-se selectivamente apenas à população segundo um critério extremamente objectivo. Há sempre dinheiro para tudo menos para as pessoas.
E, ao mesmo tempo que a comunicação social vai debitando notícias que produzem em quem lê e quem ouve a habituação à ideia  de um regresso resignado a um passado em que a Saúde era um privilégio do universo restrito daqueles que tinham dinheiro para pagá-la, o poder político faz um esforço no sentido de encontrar ofertas alternativas incomparavelmente mais baratas. Alexandra Solnado apresenta-se nas revistas que algumas franjas da nossa população consomem como sucedâneas da Cultura e do conhecimento científico a que são alérgicas como uma terapeuta da alma que desenvolveu a capacidade de viajar por vidas passadas. Conversa regularmente com Jesus Cristo, o próprio. Respondeu afirmativamente ao convite que a própria reconhece ser um “positivo sinal de evolução que acompanha a tendência destes novos tempos e que já atinge uma instituição tão reconhecida" e estará presente nas jornadas que estão a decorrer no Parlamento, onde, com uma experiência adquirida ao longo de 60 mil atendimentos, dará uma palestra sobre "como as memórias das vidas passadas interferem na saúde" e como a "limpeza das memórias" pode contribuir para a saúde e o bem-estar”. “Evolução”, “novos tempos” e “abertura”, porque só o preconceito se agarra ao passado. “Sinais positivos”, portanto. Poder tratar a hepatite C ou outra qualquer maleita limpando a alma de manchas de vidas passadas é uma excelente notícia.


Actualização: a conferência de Alexandra Solnado foi cancelada à ultima hora. 

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