quinta-feira, 8 de maio de 2014

Saídas sempre limpas



Primeiro episódio: alegadamente para assinalar o 40º aniversário da revolução de Abril, um movimento que desenvolve práticas mesmo nada democráticas desferiu um ataque informático contra a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa e contra o Sistema de Informação do Ministério Público que resultou na divulgação em vários sítios da Web de milhares de dados pessoais de magistrados e funcionários do MP, que colocam em risco a sua segurança pessoal. Apesar da gravidade extrema do episódio, tão desabituada que a democracia que vamos fazendo está de se dar ao respeito, nem falar em demissões, muito menos a da Ministra da Justiça.


Segundo episódio: dias depois, também na internet, o mesmo “Anonymous Portugal” divulgou matrículas, marcas, modelos e cores de mais de 300 viaturas descaracterizadas utilizadas pela GNR e PSP, novamente informações que colocam em perigo a vida de todos os agentes que delas se sirvam para desenvolverem o seu trabalho. À semelhança do que aconteceu no episódio anterior, a notícia foi desvalorizada e Voltou a não se ouvir falar em demissões. Um Ministro que não se demite nem mesmo quando um seu ex-director-geral é preso por corrupção também não se demitirá apenas porque a segurança de umas largas centenas de agentes é oferecida a quem dela queira tirar partido por um grupelho de badamecos que brincam com a segurança informática do Ministério pelo qual alegadamente é o responsável político.


E ficámos hoje a conhecer o terceiro episódio desta saga. O mesmo grupo publicou na Net uma fotografia de família do procurador que coordena o Gabinete de combate ao Cibercrime da Procuradoria-Geral da República. O próprio, a esposa e os quatro filhos menores, todos eles na fotografia, ficam à mercê da criatividade profissional de qualquer bandido que os reconheça na rua. As palavras “demissão” e “responsabilização” voltaram a não saltar daqueles livros que falam sobre como funcionam as democracias a sério para as bocas e para as mãos daqueles senhores e senhoras que antigamente diziam e escreviam qualquer coisita para não deixarem os portugueses a dormir sobre a incompetência e a irresponsabilidade dos seus governantes. Paula Teixeira da Cruz voltou a poder ignorar o incidente.


A comunicação social dos nossos dias especializou-se em saídas limpas. Na Terça-feira, em Estremoz, um troglodita assassinou barbaramente a advogada que estava a tratar do divórcio ao saco de pancada que agrediu impunemente durante anos, mas ontem a notícia era a de uma Ministra da Justiça comovidíssima com o crime, a enviar condolências à família da vítima e a prometer que se fará Justiça, como se de alguma forma pudesse interferir no processo sem incorrer no mesmo crime cometido pelo Capitão Iglo – sim, foi ele – quando pôs os casos BPN e submarinos a navegar em águas de bacalhau.


Este último, o caso submarinos, que já tem condenados a penas de prisão tanto na Alemanha como na Grécia, fez outra notícia com os mesmos níveis de normalidade: será objecto de uma Comissão Parlamentar de inquérito presidida por alguém do mesmo partido do mesmíssimo Portas que fechou o negócio, uma Comissão que terá 180 dias, incluindo os da suspensão dos trabalhos na Assembleia da República durante a campanha eleitoral das europeias e os das férias parlamentares, para apresentar o relatório final. Mais uma saída limpa. Estas saídas limpas são tão importantes para o futuro do país que o Capitão Iglo já disse no facebook que vai aproveitar o dia das próximas eleições para ir à praia: assim fica com a certeza que não vai sujar nenhuma. O Capitão Iglo é um grande patriota.




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