segunda-feira, 12 de maio de 2014

Olha que parva


Os triunfos pedagógicos do bem sobre o mal no final de quase todas as histórias que nos enriqueceram as meninices e o triunfo do mal sobre o bem quase sempre no final dos contos do vigário que nos foram empobrecendo ao longo de toda a nossa existência adulta. Pelo meio, na vida de muitos de nós, o 25 de Abril de 1974.

Ainda não tinha seis anos de idade quando se deu a revolução. Tinha completado os sete há pouco quando com os meus pais e irmãs regressámos a Portugal. Fomos viver para Almada, cidade onde muita gente trabalhava na indústria, a extinta Lisnave era ali, e já então com forte implantação comunista, se bem que naquela altura quase toda a gente se dizia comunista mesmo que não fosse. Naturalmente, eu também era “comunista”. Os comunistas eram os bons e os fascistas eram os maus, especialmente os PIDES, os piores de todos, que por isso mesmo me ia inteirando se já tinham sido todos presos e exemplarmente punidos. Evidentemente que aos sete anos é impossível saber o que é o comunismo, mas a coisa encaixava que nem uma luva no meu imaginário infantil de bons e de maus, sem nada digno de registo no meio.

Só vivemos em Almada um ano. Mudámo-nos quando já muito pouca  gente se dizia comunista sem o ser. Mudámo-nos para uma cidade mais ao Norte, para a Figueira da Foz, onde creio nunca houve muita gente a dizer-se abertamente comunista, ainda que o fosse. Eu cá continuava a ser. Cidade estranha, aquela, em que “seu comunista” era insulto e onde as pessoas faziam má cara quando me dizia comunista. Por feitio, aquilo divertia-me. Cheguei a apanhar umas reguadas “fascistas” por me atrever a ser “comunista” no recreio da escola e uns puxões de orelhas por chamar “PIDEs” aos  queixinhas. Apesar de não ser insulto, “PIDE” também não era mimo. Pior que PIDE era ser “vermelho”. Isso é que não. Até porque “toda a gente sabia” que os bons meninos e meninas não querem saber da política para nada, muito menos retaliam puxões de orelhas de professores com baldes de água fria pela cabeça abaixo naquela que justamente se chamava Rua dos Banhos no tempo do saudoso Salazar.

A minha geração  cresceu nesta escola da obediência que sobreviveu à revolução e continuou a deformar muito depois de 74. Tudo isto o recordo sem réstia de traumas de criança , embora com mágoas do adulto que se foi formando depois. Hoje, mais uma vez, tropecei numa notícia apenas possível num país onde se fez uma revolução e se depôs uma ditadura sem julgar e punir os seus carrascos. Não podemos querer que um povo que assiste à condecoração do PIDE Rosa Casaco com a Ordem da Liberdade e à pensão que foi negada a Salgueiro Maia não se torne um povo videirinho e sem qualquer tipo de valores de Justiça. É anormalmente natural que a grande maioria que viu devolvida à oligarquia que enriqueceu à sombra da ditadura toda a fortuna que sugou ao povo que explorou e fez seu escravo acrescida de uma compensação pelos anos em que a democracia não lhe proporcionou as mesmas rendas desenvolva o instinto de nunca afrontar abertamente os fortes e poderosos mesmo quando estes cometem os crimes mais hediondos. Não é de esperar que um povo que assiste ao desprezo com que o regime trata os resistentes anti-fascistas, que nem sequer se deu ao trabalho de contabilizar quantos morreram às mãos da ditadura, e nega a palavra aos heróis de Abril na cerimónia do 40º aniversário da revolução seja um povo com ideais que se bata intransigentemente pelos seus e valorize quem faz o que pode para o defender numa democracia corrompida pela sua própria indolência. Não se pode esperar grande Justiça de um regime que permitiu que aqueles juízes que julgavam para a ditadura continuassem a julgar para a democracia sem grande sobressalto. Esperto é aquele que se safa. Parvo é aquele que se insurge contra a cultura do favor e do sempre foi assim. E, claro, tudo pode acontecer. Tudo vai acontecendo.

Uma Justiça para ricos e outra para pobres. Tem sido cada vez mais assim e sem chatices de maior. A notícia que referi atrás tem uma parva e dois espertos. A parva recusou-se a engolir a versão da quadrilha Jardim Gonçalves segundo a qual os ex-administradores não conheciam os beneficiários das 17 offshores e dos empréstimos que lhes foram sendo concedidos e foram-nos aprovando, empréstimo atrás de empréstimo, milhão após milhão, com base na confiança nos "soldados rasos" da instituição, isto é, nos funcionários dos escalões inferiores. Os dois espertos, pelo contrário, acham possível – disseram que acham, é o que conta – que haja bancos que financiem milhões de euros e só o 'homem do balcão' ou, no máximo, o seu superior, saiba a identidade do cliente, cabendo aos funcionários no fundo da linha hierárquica toda a responsabilidade da transacção e aos administradores e quadros superiores confiar nos primeiros até ao infinito. Resultado: 2-1, ganharam os espertos, que podem alimentar fundadas esperanças quanto ao futuro das suas carreiras. A quadrilha (afinal) não falsificou documentos. Bem me parecia. Parafraseando o Capitão sem medo, "meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos". Aqui estamos.

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