sexta-feira, 23 de maio de 2014

Gostei de ler: "A outra abstenção violenta"


«Portugal é um dos países com eletricidade e gás mais caros da União Europeia, em termos de paridades de poder de compra. De acordo com o Eurostat, Portugal foi o terceiro país com maior aumento do preço da energia na União Europeia entre o segundo semestre de 2012 e idêntico período de 2013 e o segundo com maior aumento do preço do gás nesse período.
São dados importantes para equacionar cenários de retoma para a economia portuguesa, não são? Pois no preciso momento em que o País tomava conhecimento disto, o PSD acusava o PS de querer trazer de volta o vírus do despesismo, o PS respondia ao PSD dizendo que essa acusação faz lembrar o nazismo e o PSD replicava ao PS dizendo que se sentia muito ofendido com a comparação.
Houve quem voltasse a lembrar que os números do relatório do Eurostat se calhar mostram que isto da saída limpa vai ser um ai-jesus mas logo o PS disse que era preciso censurar o Governo e o ai-jesus, afinal, foi saber se o PS ia apresentar uma moção de censura ao Governo, quando, com quantos parágrafos, com que ângulo de ataque e redigida por quem. E entretanto o PSD disse que eleições europeias nunca fizeram cair governos e o PS respondeu que até ao dia 25 não ia falar da queda do Governo.
Correu tudo como se esperava, portanto. O trabalho de ambos para aumentar a abstenção foi supereficaz. As encenações para pôr as tropas a reunir são cada vez mais grotescas, os berros são cada vez mais em falsete e os truques do "nós fizemos as contas e vamos repor os salários daqui a um bocadinho" ou do "malta, cuidado que vem lá o outro, aquele, o mau muito mau mesmo" são coisa que já ninguém suporta.
No domingo, este trabalho vai render frutos, pois claro. Com protagonistas assim, o crédito do sistema político fica pior do que a dívida pública portuguesa nos ratings da Moody"s. Tudo convergirá para fazer da zanga e do cinismo uma consequência totalmente inconsequente face à sova da troika e do Governo. E é então que nos vem à memória uma pergunta batida: "Que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer, que só te manda obedecer?"
Engrossar a abstenção é o maior dos bónus a quem não os merece. E a não contaminação pela sujidade da política é o álibi moral perfeito para a comodidade de deixar a política apodrecer às mãos de medíocres que dela se servem para tudo menos para servir o povo. Há, entretanto, uma coisa óbvia: à medida que a abstenção foi aumentando, a qualidade da vida política e a qualidade do País não aumentaram, diminuíram sempre. Ou seja, a abstenção não contribuiu em nada para regenerar a qualidade da política. Foi puro alheamento, desresponsabilização mas totalmente estéril, sem o mínimo impacto na construção de alternativas.
A raiva que se demite é sempre uma ajuda para os causadores da raiva. Se quem está descontente não votar, a decisão caberá a quem está satisfeito. Assente num cinismo autojustificativo ou numa pura exaustão, a abstenção será falta de comparência ao confronto com quem manda e um prémio a quem faz campanha a entreter para não ter de falar do essencial. É também nisto que o povo grego nos dá lições de dignidade: a revolta nas ruas e nas praças não parou às portas das assembleias de voto. Esse é o grande desafio à coragem que nos está feito agora: trazer para o voto a força que nos cresce nos dedos, a raiva que nos nasce nos dentes. O voto de cada um/a pode mesmo mudar a sua vida. As nossas vidas.» - José Manuel Pureza, no DN.

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