sexta-feira, 16 de maio de 2014

Gostei de ler: "Acredita, se não tiveres nojo"



 
«Amanhã. Amanhã cumpre-se finalmente Portugal. Um novo 1640! Não, não chega, é preciso mais. Sim, um novo 25 de Abril! Cá vai, um brinde de Murganheira ao novo 25 de Abril. Não tens nojo, pois não? Então... mas e o povo pá, as revoluções não precisam de povo? Isso era dantes, agora a revolução passa na tv, em horário nobre. É de todos mas não é de ninguém, topas? Quer dizer, a revolução é como a culpa, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular. Somos todos culpados em geral. Afinal, andámos a viver acima das nossas possibilidades, não foi? E em particular?


Bom, em particular a maioria da população portuguesa foi sempre pobre, e os ricos foram sempre ficando mais ricos. Houve rendas, PPP, contratos swap, ajudas aos bancos, benefícios fiscais e especulação financeira, mas lá está, a culpa é de todos e não é de ninguém. A libertação da Troika e a inversão do ciclo económico são como a culpa que partilhamos por termos vivido acima das nossas possibilidades: não a sentimos na pele, muito menos no bolso, mas passa insistentemente na televisão, e por isso deve ser verdade.


Vejamos a coisa pelo avesso.


Três anos de Troika fizeram o PIB recuar 14 anos e o número de empregos recuar 17. Não há registo do investimento em percentagem do PIB alguma vez ter sido tão baixo, e a dívida pública tão alta. O governo insiste num mirífico reequilibro externo, mas a verdade é que o problema da dívida privada continua por resolver, e o saldo da balança comercial só foi possível porque o empobrecimento deprimiu as importações. Em termos económicos e sociais a Troika não durou 3 anos, mas pelo menos 23. Os 10 perdidos, os 3 oficiais, e mais 10, no mínimo, que ainda vamos precisar para voltar ao princípio. Isto assumindo que estamos a voltar ao princípio. Mas será que estamos mesmo?


Nos primeiros três meses de 2014 foram destruídos 42 mil postos de trabalho que acabaram por não ser refletidos no desemprego por causa da emigração e dos desencorajados. O défice da balança comercial agravou-se porque as exportações dependem absurdamente de um único produto, combustíveis. E a refinaria da Galp em Sines, que o governo jurava não determinar o aumento das vendas para o exterior, agora é a desculpa perfeita para a sua quebra "pontual". A única coisa que retomou na retoma do governo foi o crescimento negativo do PIB (-0,7% no primeiro trimestre).


 A austeridade nunca produziu milagres e Portugal não é exceção. Cortar salários não resolve o problema porque o problema nunca foi os salários altos. Cortar pensões não traz sustentabilidade ao sistema, porque não é essa a causa da insustentabilidade. Cortar a eito no Estado Social não melhora a sua eficácia, porque a ineficácia, além de estar por comprovar, não vem com certeza do sobrefinanciamento. A austeridade produz outras coisas. Produz a pobreza, o desemprego e a emigração que minam a sustentabilidade do Estado Social e da economia. Produz ainda dívida pública, e com ela os oito mil milhões de euros de juros que todos os anos voam para fora do país, agravando a nossa Balança de Pagamentos com o exterior muito para além do que os tais vistos dourados podem compensar.


 Amanhã a Troika vai embora, mas deixa esta dívida atrás de si. Com ela, a garantia de visitas regulares do FMI, que nunca confia o seu dinheiro a mãos demasiado democráticas. Com ela, um plano detalhado de pagamentos, com metas e velocidades previamente acordadas com o governo. Amanhã a Troika vai embora mas deixa um outro pacto de regime em sua substituição: o Tratado Orçamental. É a austeridade feita lei e a garantia da ingerência de Bruxelas sempre que isso não for cumprido.


 Amanhã a Troika vai embora mas os salários não são devolvidos, nem o SNS, nem as pensões, nem os impostos, nem os empregos, nem o futuro. Amanhã, a Troika vai embora. E cá vai, um brinde de Murganheira ao novo 25 de Abril! Não tens nojo?»



Mariana Mortágua, no Expresso.

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