segunda-feira, 5 de maio de 2014

Era uma vez uma porca limpinha


A porca. Comprada por três partidos que se puseram de acordo em pagá-la com o suor e com o sangue do seu povo, cortou nos salários o que proporcionou aos lucros e às rendas e chamou-lhe ajustamento. Deu aos grandes o que retirou aos pequenos, desmantelando serviços públicos para proporcionar fortuna a privados e chamou-lhe reformas estruturais. Destruiu a economia, alegadamente para fortalecê-la, e foi chamando sucesso aos fracassos sucessivos que foi acumulando no saco dos auto-elogios. Semeou fome e miséria para reequilibrar contas externas e vangloriou-se da cobardia a que chamou de coragem. Empobreceu e desempregou para melhorar a capacidade de pagamento de uma dívida que não se comoveu com as boas intenções do inferno da porcalhona e iniciou um galope desenfreado acelerado pela austeridade e pelos juros agiotas que a vão fazendo aumentar como nunca. Mesmo que se fosse embora – e não vai: ficam a mesma austeridade selectiva, uma multidão de desempregados aumentada em meio milhão de pessoas, uma dívida pública que cresceu 30% em apenas três anos, uma economia em fanicos, as “avaliações” periódicas e as mesmas regras de um Banco Central Europeu que não tem pejo algum em pôr países como Portugal à mercê da ganância da especulação financeira –, nem que fosse por ser uma porca tãocomprovadamente porca, a besta teria sempre uma saída tudo menos limpa. A nossa não. Ontem, regressei a tempo de ouvir Pedro Passos Coelho, com mais um aumento de impostos fresquinho num bolso e com mais cortes à espera de vez escondidos no outro, a anunciar-lhe uma saída limpa. E sê-lo-á, limpinha, se nas eleições do próximo dia 25 os três que compraram e engordaram a porca puderem confirmar que quanto mais porcaria fizerem menos votos necessitam para se fazerem eleger. Será à escolha do freguês. Ou sujamos a porca, ou vamos ter que conviver com ela por pelo menos mais 20 anos, até pagarmos 75% do todo que custou o que a porca comeu até agora. E já sabemos que a porca não vai parar de comer. Era uma vez uma porca limpinha. A fábula que nos andam a contar até parece um conto infantil.

4 comentários:

Anónimo disse...

A esquerda é assim, não tem humildade para dar o braço a torcer quando se engana e quer para o país quanta mais miséria for possível, para à custa disso ganhar uns votos. Pois desta vez saiu-vos o tiro pela culatra. O governo de direita tirou o país do fosso em que os socialistas de esquerda nos meteram. Engulam o sapo!

Filipe Tourais disse...

Que parte é que não percebeu? Leia isto:

Os juros descem na Grécia, descem em Portugal, descem em Espanha e descem em todos os periféricos. E descem tanto mais quanto mais altos estavam antes de toda esta euforia começar. Como mostrou o economista Paul de Grauwe, depois da garantia de Draghi de que o BCE faria tudo o que fosse necessário para evitar o desmembramento do euro, o que melhor explica a descida dos juros é o nível inicial desses mesmos juros: quanto mais alto era o nível, maior é a queda. E descem porque, fruto das políticas expansionistas dos bancos centrais, há um excesso de liquidez nos mercados, que, por não haver oportunidades de investimento real, tem forçosamente de ser investido no que resta, que são os ativos financeiros. Se juntarmos a isto a saída de capitais dos mercados emergentes, as baixíssimas taxas de rentabilidade disponíveis, torna-se mais fácil entender por que razão há tanta procura pela dívida pública dos países da chamada periferia: é o que permite garantir alguma rentabilidade num mundo financeiro que não pode existir sem essa rentabilidade. Num certo sentido, e independentemente da sua sustentabilidade, o investimento na dívida de todos estes países é feito por necessidade, não por escolha.


Esta situação é o resultado inevitável da estratégia que consistiu em mobilizar todos os recursos públicos para inflacionar o preço dos ativos financeiros sem cuidar de reabilitar a realidade económica que lhe subjaz. Inundar o sector financeiro de liquidez ao mesmo tempo que se destrói a economia e a procura com políticas de austeridade tinha de resultar na criação de dois mundos, um mundo financeiro cheio de dinheiro para aplicar, outro com uma economia onde não vale a pena investir. Perante isto, o setor financeiro vê-se forçado a investir em si próprio e nos ativos que estão disponíveis. A bolha é, pois, o resultado racional de uma estratégia que é, em si mesma, irracional e que, mais cedo ou mais tarde, vai rebentar. Podemos adiar o confronto com a realidade, mas ele, em algum momento, terá de chegar: países com mais dívida e menos capacidade de a pagar não podem garantir um final feliz para esta história.

Anónimo disse...

Desde quando o PS é esquerda?

Filipe Tourais disse...

O amigo lá de cima andou a perder vários capítulos desta novela.