segunda-feira, 26 de maio de 2014

Com 2 em cada 3 a ver



Às oito, a seguir às primeiras projecções, Quem sentia que iria ganhar qualquer coisa falou da sua própria vitória, quem suspeitava que não iria ganhar grande coisa preferiu sublinhar os resultados dos outros. O PS falou da derrota do Governo, o PSD comentou a vitória escassa do PS e a abstenção recorde de 2/3. O CDS nem piava. A CDU festejava os seus três, eventualmente quatro deputados. E o Bloco de Esquerda começava a pensar no que dizer para justificar que a sua liderança bicéfala está a um ou dois Marinhos Pintos de conseguir fazer o partido implodir de vez.

Às dez, os primeiros resultados davam uma vitória muito menos expressiva do que se esperava das candidaturas das forças partidárias que subscreveram primeiro o memorando com a troika e depois o prolongamento desse memorando para todo o sempre quando aprovaram o Tratado Orçamental. Francisco Assis fez bem em falar imediatamente a seguir às primeiras projecções. Com 306 em 308 concelhos apurados, a vitória socialista às dez era ainda mais escassa do que às oito. Nem com PSD e CDS juntos a não valerem 28% dos votos o PS conseguiu chegar aos 32% ou, como comentaram os resultados uns dos outros, nem com o PS reduzido a uns escassos 31,5% o PSD coligado com o CDS se livrou de se ficar pelos 27,7%,, o seu pior resultado eleitoral de sempre concorrendo sozinho.

António José Seguro nem por isso se coibiu de tentar mascarar o mau resultado dizendo que o seu partido está preparado para governar. Com a aritmética que emerge destas europeias, o PS apenas conseguirá governar com maioria parlamentar coligado com o PSD, só com o CDS já  não chega. Vai ser difícil vender aquele discurso de mudança ontem ensaiado nestas condições. Outra boa notícia é a de que, juntos, os três partidos do centrão começam a ficar longe dos 66,6% necessários para aprovarem as alterações à Constituição que tornem constitucionais os próximos capítulos da austeridade que elegeram como sua política oficial. A penalização dos partidos da troika é o sinal mais forte deixado por estas europeias. Mas há mais sinais. À esquerda, a CDU poderá dobrar o número de eurodeputados apesar de nestas eleições Portugal eleger menos um deputado. Em sentido inverso, o Bloco de Esquerda perdeu metade do eleitorado e dois dos três mandatos que tinha. A CDU conseguiu capitalizar o descontentamento de mais cinco anos de austeridade. O Bloco conseguiu diluir-se  quer nesse descontentamento, querem descontentamentos de produção caseira. Marinho Pinto logrou mesmo ultrapassar o Bloco e o MPT é agora a quarta força partidária. A chegada da praga do populismo a Portugal é a grande novidade destas eleições. A da extrema-direita fica para uma próxima.
A pobreza generalizada e o desespero já começaram a povoar a Europa dos fantasmas que o bem-estar social teve o condão de afastar. A Europa da paz social ontem começou a pertencer ao passado. As abstenções gigantescas verificadas em toda a Europa e a expressão eleitoral que agora têm populistas, eurocépticos e xenófobos para todos os gostos e desgostos deixam a ameaça no ar. Se eurocratas e Governos nacionais não alterarem rápida e substancialmente a sua forma de actuação no sentido e na forma, a qualquer momento a Europa poderá mergulhar no pesadelo mais inesperado.

2 comentários:

Anónimo disse...

Uma coisa boa: os partidos troikistas tiveram menos de 60% (deve ser inédito).
Significa que alguns portugueses estão a abrir os olhos.

Anónimo disse...

Alguns, mas poucos, 90% ainda é do centrão e dos votos ou não-votos que não contam para nada.

É continuarem a chupar devagarinho.