sábado, 31 de maio de 2014

"Aprenderam alguma coisa? Não aprenderam nada."


E os eleitores que passam a vida a queixar-se da vida mas não votam, aprenderam que a única coisa que ganham ao absterem-se é proporcionarem àqueles que lhes dão cabo da vida, e que alegadamente querem punir não votando, a oportunidade de se fazerem eleger ainda mais facilmente, com ainda menos votos? Aprenderam que os partidos que querem punir não precisam dos seus votos para nada porque contam com máquinas partidárias poderosas que lhes garantem os votos que valem tanto mais quanto maior for a abstenção? Aprenderam que não votando as suas vidas ficam cada vez mais na mesma? Aprenderam que as eleições não são uma brincadeira, é ali que as suas vidas começam a mudar para melhor ou para pior? Aprenderam os eleitores do arco que tanto dá votar no PSD como no PS ou no CDS? Aprenderam que o contrário de votar não é não votar? Não. Governantes, partidos e eurocratas podem continuar a não aprender nadinha. 

 

«(...) Não é a excepção, é a regra. Aprendeu o PS com a derrota a e maldição pública de Sócrates? Não. Aprendeu o PSD com as duas catastróficas derrotas eleitorais da actual direcção política de Passos? Não. Aprenderam o PS e o PSD o que significavam os sucessos das listas independentes nas últimas autárquicas? Não. Aprenderam o PS e o PSD com o aumento de votos brancos e nulos e as abstenções por protesto, desinteresse ou revolta contra a “oferta” política que é dada ao eleitor? Não. Aprenderam o PS e o PSD com a quebra cada vez mais acentuada dos votos do chamado “arco governativo” em relação ao conjunto dos votos expressos? Não. Aprenderam o PS, o PSD e o CDS com o divórcio já profundo entre eleitores e eleitos, entre os portugueses e a sua representação política? Não. Aprenderam o PSD e o PS o que significam resultados como os de Marinho e Pinto? Aprenderam o PSD e o PS com a cada vez maior dúvida sobre o mérito da democracia para resolver os problemas dos portugueses? Não. (...) O mesmo se passa, por razões ainda maiores, logo mais graves, a nível da Europa. Aprenderam os governos da União Europeia o que significou a derrota da Constituição Europeia na Holanda e França? Não. Aprenderam os governos com o facto de que cada vez que há um referendo as propostas do mainstream europeu chumbam ou passam por um fio? Não. Aprenderam os governos o desastre das políticas das troikas dos últimos anos? Não. Aprenderam os governos e os partidos europeístas com a enorme abstenção que há muito atinge a legitimidade do Parlamento Europeu? Não. Aprenderam os governos e os partidos centristas e de esquerda com o ascenso da extrema-direita xenófoba por toda a Europa? Não. Aprenderam os governos nacionais e os partidos europeístas com o crescimento de forças anti-União Europeia ou apenas eurocépticas por toda a Europa? Não. (...) Aprenderam alguma coisa? Não, não aprenderam nada.» - José Pacheco Pereira, no Público (texto integral aqui).

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