quinta-feira, 8 de maio de 2014

A "saída" também não será à irlandesa


Já todos estamos fartinhos de saber que, pelo rasto de destruição económica e social que a troika deixa atrás de si, pela marca indelével que vincou nas vidas de quase todos os que vivem do seu trabalho, pelo fracasso em toda a linha nas contas públicas que, contrariando o seu objectivo principal inicial,  fez derrapar como nunca, e pela austeridade que irá continuar a ensombrar o presente e o futuro dos portugueses por muitos e maus anos, a chamada "saída limpa" da troika é tudo menos saída e tudo menos limpa. Hoje ficámos a saber que também não será uma saída à irlandesa. Isto porque a maioria parlamentar PSD/CDS chumbou o projecto-lei do Bloco de Esquerda para atribuição do subsídio social aos desempregados de longa duração até que estes encontrem emprego ou se reformem, à semelhança do que acontece na Irlanda. Apesar de mais de metade dos mais de um milhão de desempregados portugueses estarem a viver o terror de um desemprego sem qualquer tipo de protecção social, a sensibilidade do PS não deu para mais do que uma abstenção que num futuro não muito distante tem todas as condições para revelar novamente toda a sua violência. Em declarações proferidas ontem, o seu cabeça de lista às europeias, Francisco Assis, fez depender uma aliança futura com o PSD do resultado das próximas eleições legislativas. Tudo se resume a uma questão de números, de votos e de mandatos. Mais palavras para quê? O PS-oposição faz um enorme chiqueiro, mas ao longo dos últimos três anos sempre votou ao lado da maioria em tudo o que é essencial. Hoje, nem mesmo com a garantia de que a maioria PSD/CDS chumbaria uma iniciativa com vista a devolver a centenas de milhar de portugueses a dignidade que nem a sopa dos pobres mais farta do mundo seria capaz de resgatar, houve um único deputado do PS que votasse a favor, ao lado de Bloco de Esquerda, PCP e Verdes. Mesmo estando na oposição, esta direita canhota está a anos-luz de tudo o que seja minimamente de esquerda. E atenção que a dignidade a que tem direito qualquer ser humano não é uma causa minimamente de esquerda. Estará sempre na essência do que é ser de esquerda. Mesmo quando os mercados tossem e mesmo quando a senhora Merkel espirra.

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