terça-feira, 8 de abril de 2014

Portugal, um país perigoso



Quando, ainda durante a governação Sócrates, começaram a fechar unidades de saúde e a concentrar urgências, lembro-me de ouvi-los dizer que era demagogo todo aquele que manifestasse a sua inquietação  ao ver aumentar a distância para o hospital ou centro de saúde mais próximo porque haveria sempre uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) que garantiria a todos os cidadãos um atendimento rápido e de qualidade. O Governo Sócrates caiu e os senhores que se seguiram, pela mão da sua estrela Macedo, prosseguiram o desmantelamento do SNS, concentrando e extinguindo ainda mais urgências, racionando ainda mais medicamentos e exames complementares de diagnóstico, reduzindo salários, reduzindo efectivos, restringindo novas contratações. E as VMER sempre a garantirem o tal atendimento rápido e de qualidade.

Em Dezembro passado, porém, um acidente mal combinado aconteceu precisamente no momento em que uma destas viaturas estava inoperacional. Quatro mortos. No Domingo passado, outra vez a mesma VMER, a de Évora, esqueceu-se de perguntar se por acaso alguém fazia questão de ter um acidente nessa tarde em que voltaria a estar fora de serviço. E houve um acidente em Estremoz. Mais dois mortos. O que raio aconteceu? Azar do diabo, o médico que estava escalado para essa tarde faltou por motivos de saúde e não havia ninguém para o substituir. Poupanças.

Poupanças que o Bastonário da Ordem dos Médicos identifica: “Está a acontecer um pouco por todo o país e não é por falta de médicos. O problema é que os hospitais, que foram obrigados a receber as VMER sem um orçamento acrescido,  estão em ruptura financeira e tentam poupar em tudo”. José Manuel Silva avança, a propósito, com o exemplo do hospital de Gaia, que “há alguns meses propôs pagar aos médicos da sua VMER 12 euros brutos à hora e sete euros brutos à hora aos enfermeiros, o que, descontados os impostos, dava metade”. “Quem é que está disposto a arriscar a vida por estes preços? Este é um trabalho de altíssimo risco”, nota.


Tínhamos um país que era nosso, tínhamos um dos melhores serviços nacionais de saúde da Europa e tínhamos um INEM que era um exemplo no mundo. Fomo-los deixando desmantelar sem protestar por não sabermos dar-lhes o devido valor. Agora vibramos com notícias sobre os negócios da saúde de um país para os outros. Se um dia destes houver um acidente mortal em que um estrangeiro endinheirado morra como deixamos morrer os nossos, por falta de socorro, pode ser que finalmente a nossa opinião pública tome consciência da vergonha que deixou acontecer. Talvez nesse dia se perceba que aquela Saúde que diziam ser melhor do que a que merecemos afinal também era fundamental para sermos aquele destino turístico que queríamos ser.

1 comentário:

fb disse...

Em Dezembro passado, porém, um acidente mal combinado aconteceu precisamente no momento em que uma destas viaturas estava inoperacional. Quatro mortos. No Domingo passado, outra vez a mesma VMER, a de Évora, esqueceu-se de perguntar se por acaso alguém fazia questão de ter um acidente nessa tarde em que voltaria a estar fora de serviço. E houve um acidente em Estremoz. Mais dois mortos. O que raio aconteceu? Azar do diabo, o médico que estava escalado para essa tarde faltou por motivos de saúde e não havia ninguém para o substituir. Poupanças.