quarta-feira, 12 de março de 2014

O dia em que o arco abanou



Ao contrário do que então escrevi, parece que o Senhor Presidente da República não ficou nada radiante com o consenso de ontem. Ao final da tarde, já era público que Vítor Martins e Armando Sevinate Pinto, que integram a lista de 74 personalidades que subscrevem o manifesto Preparar a Reestruturação da Dívida Para Crescer Sustentadamente, foram exonerados dos cargos de consultores do Presidente da República. O Público afiança que a pedido dos próprios. Impossível saber se assim foi: ontem e hoje foi particularmente visível que há uma imprensa ao serviço do mesmo poder que é servido pelo Presidente da República, Governo e por aquela maioria alargada que também inclui o PS.


Todos eles expressaram a sua inquietação com o consenso alargadíssimo e com a linguagem forte e clara de um manifesto que os confronta com a mentira que alimentaram nos últimos três anos. O Diário Económico destacou-se pela agressividade que a sua artilharia pesada dedicou ao manifesto e aos seus signatários. Pedro Passos Coelho abordou o tema reestruturação da dívida mais do que uma vez durante o dia de hoje, afastando a ideia e utilizando a mesma linguagem do medo utilizada tanto pelos seus bulldogs da comunicação social Gomes Ferreira e Camilo  Lourenço como pelos seus 102º e 105º dálmatas, Paulo Rangel e Nuno Melo. O PS optou por jogar mais à defesa, António José Seguro não se ouviu, mas pôs segundas figuras a rejeitarem a ideia de qualquer renegociação da dívida e a alinharem o partido ao coro do ai Jesus que acontecerá ao país caso tentemos fazê-lo.


Mas que explicação dar aos portugueses para dissipar a percepção de que o que está em jogo é de tal forma grave ao ponto de unir personalidades com ideias e formas de estar na política tão diversas como Manuela Ferreira Leite e Francisco Louçã ou António Bagão Félix e Manuel Carvalho da Silva? Como explicar que tantas personalidades às quais sempre se referiram com elogiosa deferência - como tal, inatacáveis sem dano imediato para quem ataque -  tenham dado as mãos e se tenham posto de acordo numa matéria tão importante como o futuro do país nas próximas décadas? A preocupação em responder convincentemente a questões como estas foi um dos traços comuns a quase todas as intervenções. E ninguém conseguiu fazê-lo sem se expor ao ridículo. O manifesto conseguiu isolar o arco do memorando e pôs o seu Presidente a espumar de raiva para cima dos dois ideia-criminosos que expulsou do seu palácio altaneiro. O consenso saiu-lhe melhor do que a encomenda.
O que deve um povo fazer para se livrar de um Presidente, de um Governo, de uma maioria e de uma espécie de oposição que se atreve a querer condená-lo à pobreza e ao declínio durante várias décadas? O consenso ainda não chegou aí, mas pode perfeitamente tomar essa direcção caso os portugueses percebam o que está realmente em causa e que têm sido enganados muito mais do que imaginavam. É isto que os faz tremer. E é lindo ver o arco a abanar.

1 comentário:

Anónimo disse...

Os jornalistas económicos e colunistas que ou são da área do governo ou têm defendido as suas posições não conseguiram disfarçar o incómodo. O nervoso foi tal que se transformou em excitação. O manifesto é, acusação costumeira quando se quer substituir o sentido crítico pelo medo, "irresponsável". Tendo em conta as características dos subscritores, não deu para fazer a habitual marginalização da divergência, atirando os seus proponentes para fora da seleto salão da respeitabilidade do poder. Com os presidentes da CIP e da CCP, na companhia de consultores (agora ex-consultores) de Cavaco Silva, e o conteúdo moderadíssimo desta proposta de reestruturação, a acusação de "radicalismo", apesar de ter surgido, ficou manca. Mas, de uma forma ou de outra, vai voltar a ser tentada.

E porque é o manifesto irresponsável? Porque, propondo o óbvio, avança com um começo de solução (que tem, como qualquer solução neste momento, custos) que irá desagradar à troika e aos mercados. E por isso o óbvio devia ser calado ou pelo menos ser dito em surdina. Como esta crítica vem de jornalistas e comentadores, há razões para ficarmos preocupados. No debate público que temos há três anos, as pessoas que têm obrigação de esclarecer defendem a dissimulação. As que devem fazer perguntas pedem para as respostas não serem dadas. E percebemos a farsa política em que vivemos, onde rios de tinta são gastos a defender caminhos em que os próprios autores não acreditam.