quinta-feira, 20 de março de 2014

Gostei de ler: "A história do bisavô e as histórias do Vítor Gaspar"


«Num colóquio no ISCTE, o ex-ministro das finanças de Passos Coelho terá lembrado que José Dias Ferreira, bisavô de Manuela Ferreira Leite, terá recusado pagar a dívida pública externa, contrariando a proposta de Oliveira Martins, seu ministro das finanças e tio-bisavô do actual presidente do Tribunal de Contas. Em consequência, o Estado declarou bancarrota e o governo caiu. A família tem destes problemas, nunca somos responsáveis pelo que fazem e pelo que dizem os nossos parentes, ainda por cima um século atrás.

 A moral da história de Vitor Gaspar, no entanto, tem um problema. É que o Estado português renegociou a dívida depois de ter declarado o seu incumprimento. Rejeitou a pressão da Inglaterra e da Alemanha que queriam ficar com activos do Estado (neste caso, uma parte das colónias). Negociou taxas de juro baixas e um prazo agigantado para quase um século. E viveu sem problemas de novas bancarrotas. Ou seja, os bisavós fizeram o que hoje é recusado pelos mandantes financeiros.

 Mas Vitor Gaspar ainda se engana outra vez quando vai buscar um exemplo fora da família, o de Alexander Hamilton, um dos fundadores dos EUA (foi chefe de gabinete do general Washington e depois ministro das finanças). É que Hamilton não defendeu só contas equilibradas e rigorosas, o ponto referido pelo ex-ministro português. Ele usou também os instrumentos que tinha à mão, incluindo uma política proteccionista para proteger as novas indústrias no seu país. Recusou a liberalização dos capitais e das mercadorias e os resultados parecem dar-lhe razão. Conseguiu o que agora nos está proibido.
 Ou seja, os dois exemplos de Vitor Gaspar contrariam a política do governo e da troika. O primeiro demonstra que é preciso renegociar a dívida. O segundo demonstra que é preciso defender a economia da agressão liberal. Aqui estão dois bons conselhos, que os bisavós bem conheciam e que faremos bem em lembrar. A família ensina-nos sempre alguma coisa.» – Francisco Louçã (primo de Vítor Gaspar), no Inflexão.

2 comentários:

Anónimo disse...

A última frase fica um bocado mal ao Louçã...

Filipe Tourais disse...

Acho precisamente o contrário, é um final com enorme toque de classe.