quarta-feira, 26 de março de 2014

Nem o país melhora, nem a gente almoça


O país está muito melhor, embora a vida dos portugueses esteja pior. Dito assim, de forma vaga e imprecisa, tal como o fez Luís Montenegro há um par de semanas, o saque destes dias quase que fazia cair o Carmo e a Trindade. Traduzido em números, com a forma precisa e detalhada de uma síntese de execução orçamental, pois nem Carmo, nem Trindade, nem sequer o país está melhor, pelo contrário. Os números são hieróglifos ilegíveis para uma grande maioria incapaz de decifrá-los que, como tal, os lê como leria o pior dos insultos em sumério. Sem reagir. O Governo sabe bem que é de Audis que o bom povo gosta.

E a síntese de Fevereiro está pejada de detalhes sórdidos. Mostra, por exemplo, como, para aliviar ainda mais a tributação de rendimentos de empresas, os rendimentos do trabalho foram ainda mais castigados com impostos do que em 2013, terceiro ano consecutivo em que os portugueses foram campeões europeus das reduções salariais e ano de desemprego generalizado em que as receitas de IRS cresceram 35% relativamente a 2012. Em Fevereiro de 2014 as receitas de IRS voltaram a crescer 17,7% relativamente ao mesmo mês do ano anterior e, pelo contrário, as receitas de IRC reduziram-se 15,2% entre os dois Fevereiros. As receitas de IRS dos dois primeiros meses de 2014 somam 2400 milhões de euros, ao passo que as receitas de IRC do mesmo período somam apenas 165,1 milhões de euros, isto é, por cada euro cobrado sobre lucros foram cobrados 14,50 euros sobre salários e sobre pensões de reforma. As grandes fortunas continuam à margem de qualquer contribuição.

Mostra também como, no meio da maior tragédia social desde o 25 de Abril, o valor pago em subsídios de desemprego se reduziu em 13,7%, para 429,3 milhões de euros. Números oficiais, e o desemprego real é muito superior ao oficial, Em Dezembro passado, mais de metade dos desempregados (442 mil) não recebiam qualquer ajuda do Estado. De acordo com dados disponibilizados na página da Segurança Social, no final do ano passado havia apenas 376.922 beneficiários de prestações de desemprego que escaparam à insensibilidade social deste Governo.

E mostra como o pagamento de juros e comissões aumentou 47,7% relativamente a Fevereiro de 2013, mais 246 milhões de um total de 8.173 milhões de euros previstos até ao final do ano. É para esta despesa, que PSD, PS e CDS não querem renegociar, que Vão impostos que não foram brutalmente aumentados para termos melhor Saúde e Educação e os salários e pensões de reforma que o Governo cortou à margem da Constituição, tal como é no interesse de credores tão bem remunerados que o Governo não vê qualquer problema nos quase meio milhão de portugueses, que a sua austeridade – e não a preguiça que tanto gosta de apontar-lhes - empurrou para o desemprego, que não têm direito a um cêntimo sequer dos 4,4 milhões de euros em impostos que foram cobrados em cada hora  dos primeiros dois meses deste ano. 

Não irei alongar-me muito mais, até porque a experiência me diz que quase ninguém consegue ler até ao fim posts com tantos números. Concluo com os 6,4% de derrapagem da despesa relativamente a 2013 que, por não terem sido compensados pelo aumento de receita verificado de 7,2%, produziu um saldo orçamental negativo de -30,8 milhões, isto é, a dívida continua aumentar apesar deste saldo se ter reduzido em 150 milhões de euros relativamente a 2013, apenas um pouco mais de um terço dos 420 milhões do crescimento da receita fiscal. O país não está melhor e a vida dos portugueses também está cada vez pior. Mas há sempre alguém a tentar convencer-nos do contrário.

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