sexta-feira, 14 de março de 2014

Façam o favor de acreditar



Entre outros estudos de outras organizações nacionais e internacionais que, todos eles,  apontam no mesmo sentido, em Setembro passado um relatório da organização não governamental Oxfam deixava o alerta à Europa para os perigos do caminho da austeridade e citava Portugal como exemplo de um país onde, à semelhança do que aconteceu em todos os países da América do Sul, Ásia e África por onde o FMI também andou  a fazer das suas, as políticas de austeridade, para além de estarem a fazer aumentar o endividamento e a reduzir o crescimento, estão a beneficiar apenas os mais ricos e a colocar o país em risco de se tornar num dos mais desiguais do mundo.

Há dias foi notícia o aumento de 24% assinalado pela revista Forbes nas fortunas dos três homens mais ricos de Portugal, Amorim, Belmiro e Soares dos Santos, que já tinham engordado a ritmo semelhante no ano anterior. O número de milionários em Portugal tem aumentado com a austeridade. Só em 2012, aumentou 3,4%, mais 350 milionários do que no ano anterior. Eram quase 11 mil os portugueses que tinham uma fortuna de mais de um milhão de dólares, sem contar com bens imobiliários.
E hoje o FMI vem dizer-nos que as medidas de austeridade aplicadas em Portugal de 2008 a 2012, que incluem cortes nos salários dos funcionários públicos, cortes nas pensões, diminuição das protecções sociais e aumento do IVA, conduziram, em média, a uma redução do rendimento disponível das famílias de 6,3% e que  essa redução foi menor para os 20% mais pobres, ligeiramente  acima dos 5%, ao passo que para  os 20% mais ricos a quebra atingiu os 10%. Façam o favor de acreditar que o FMI é uma instituição filantrópica que se dedica ao combate às desigualdades e inspirada no seu ex-director-geral Robin dos Bosques, o próprio. O crime organizado dos nossos dias não prescinde da desinformação e da contra-informação como arma poderosa para se fazer aceitar. Há sempre quem acredite.

3 comentários:

Anónimo disse...

O FMI até pode estar a falar verdade. Só que não diz a verdade toda e, certamente, está a esconder o mais importante.
Vejamos, então:
Os 20% mais pobres não foram muito roubados pois os salários mínimos e reformas mínimas pouco foram cortados. Também já não havia muito por onde cortar. O que o FMI esqueceu é que estas pessoas deixaram de ter acesso a alguns serviços essenciais (mas para eles isto não é perda de rendimento).
Os 20% mais ricos são uma ficção. Neste grupo estão muitos portugueses de classe média, média-alta que foram substancialmente roubados. Em compensação, os Salgados e os Ulricos continuaram a encher-se à grande.
Resumindo, martelaram os números de tal forma que, sem mentir, contaram uma história que não corresponde minimamente àquilo que se tem passado.

Filipe Tourais disse...

O RSI foi reduzido drasticamente, o desemprego mergulhou meio milhão de portugueses numa pobreza sem direito a qualquer prestação social, o IVA foi aumentado e é um imposto regressivo que castiga sobretudo os mais pobres porque o seu rendimento é integralmente consumido, o salário mínimo generalizou-se, não é actualizado desde 2010, isto é, o salário real mínimo deteriorou-se com a inflação, e os salários em geral tiveram as maiores reduções em toda a Europa ao longo destes 3 anos. Dizer que os mais pobres não ficaram muito mais pobres é ficção. Da parte dos ricos, o mesmo. As grandes fortunas aumentaram como nunca e permanecem à margem de qualquer imposto, para além da deslocalização de sedes tributárias que foram permitidas, o IRC das grandes empresas foi reduzido. Poderia continuar, mas fico-me por aqui.

Anónimo disse...

Foi isso mesmo que eu disse.
Os 60% do meio foram brutalmente castigados e ficaram quase todos mais próximos dos 20% mais pobres.
Estes, em rendimento, perderam proporcionalmente menos. No entanto, foram penalizados de outras formas (as que referiu) e viram a sua vida piorar bastante.
Os 20% mais ricos são, para mim, uma ficção pois há 1 ou 2% que tem lucrado muito com a crise e os restantes viram os seus rendimentos encolher.
O espantoso é que, basicamente sem mentir, o FMI apresentou umas estatísticas que não reflectem a realidade que conhecemos mas que ajudam a dar força à propaganda com que diariamente somos bombardeados.