quarta-feira, 5 de março de 2014

Efeito Montenegro



"Eu [Luís Montenegro, PSD] sei que a vida quotidiana das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas que o país está MUITO melhor do que em 2011." Como todas do género, a frase nasceu, ecoou, indignou, ressoou e depois extinguiu-se. Tratando-se de um dos melhores resumos da forma como o destino do país tem sido conduzido nas últimas décadas por um arco que privilegia clientelas, às quais deixou de ter pejo algum em chamar de "país", e despreza, com fortes razões para o fazer, pessoas que ou aceitam ou não cobram tal desprezo em sede própria  – em eleições, pois claro –, a frase saiu de cena demasiado cedo.

E é pena que assim seja, porque a deixa de Montenegro encerra uma questão conceptual importantíssima: existe "país" e existem "pessoas". Não há que confundir país com pessoas, ou melhor, quem aceite viabilizar esta dicotomia com a força do seu voto ou com a inércia do seu não voto não deve desiludir-se se o país melhorar e a sua vida piorar. Não há nada de anormal nisto, pelo contrário, o mundo é mesmo assim e "pelo menos" – a aceitação desta realidade fundamenta-se num sem número de frases começadas por "pelo menos" – "pelo menos", dizia, quem veja a sua situação piorar a cada dia que passa fica com a certeza que é "pessoa" e quem sinta que está muito melhor tem razões de sobra para se convencer que é "país".

Nem de propósito, baseando-se na lista das maiores fortunas do mundo publicada pela revista Forbes e nos valores dos PIB que constam nas estatísticas anuais do Banco Mundial, o I traz hoje à estampa um exercício que ajuda a perceber a diferença constatada pelo génio Montenegro. Comparando a riqueza individual de cada um com toda a riqueza produzida nos seus países de origem durante um ano, "somos obrigados a juntar as fortunas dos cinco mais ricos dos EUA – Gates, Buffet, Ellison, Koch e Koch – para encontrarmos um peso semelhante ao acumulado pelos milionários portugueses:o Top 5 dos mais ricos dos Estados Unidos acumula 1,6% do PIB do país – 262,2 mil milhões de dólares –, mais que os 1,3% e 1,18% de Soares dos Santos e Belmiro, mas aquém dos 2,5% do PIB português de Américo Amorim".

A fortuna dos nossos três "países" aumentou 24% desde há um ano, período durante o qual a redução dos salários das pessoas  voltou a ser o maior registado em toda a Europa pelo terceiro ano consecutivo, o desemprego das pessoas voltou a aumentar, as receitas de IRS (impostos sobre as pessoas) aumentaram 35%. E o imposto sobre os lucros das grandes empresas, entre elas as que enriquecem os nossos três "países",  foram entretanto reduzidas com os votos a favor de PSD, PS e CDS, os partidos que vão à frente com mais de 80% nas intenções de voto das pessoas nas eleições europeias de Maio próximo. Luís Montenegro terá toda a razão quanto ao "país" estar MUITO melhor. Já quanto ao quotidiano das pessoas  não estar melhor, as sondagens colocam algumas dúvidas. Pelo menos chateadas não andam. O "país" está melhor. E  toda a gente sabe que isso é que é importante para as pessoas. Pelo "país", tudo o que as pessoas não quiserem para si. Chamemos-lhe "efeito Montenegro". Salários a encolher, lucros das grandes empresas a aumentar, impostos sobre o trabalho a subir, impostos sobre lucros a baixar, as grandes fortunas a aumentar em função da pobreza de que se alimentam. Pelo menos estamos vivos. 

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