domingo, 2 de março de 2014

CPLP(p): Cleptocracias de língua portuguesa (ou parecidas)


Quem haveria de dizer que exactamente no mesmo país onde se bradava aos sete ventos que não havia dinheiro para salários e pensões de reforma, que por essa razão estavam a ser apropriados pelo Estado à sombra de um regime de excepção engendrado especialmente para o efeito pelo colaboracionismo dos membros do seu Tribunal Constitucional, haveriam de desencantar-se 1100 milhões de euros em dinheiros públicos, valor semelhante ao somatório desse roubo, para recapitalizar um banco falido?  Aconteceu na passagem de ano de 2012 para 2013, sem anúncio prévio e para surpresa de todos. O banco em causa foi o BANIF, por cuja administração se passearam as figuras do regime elencadas no vídeo que ilustra este post e cujo Presidente do Conselho de Administração é Luís Amado, mais um ex-membro de um Governo que levou consigo o acervo de segredos de Estado ainda fresquinhos que acumulou enquanto ministro dos Governos de Sócrates directamente para a administração de uma empresa privada que mantém relações comerciais com o mesmo Estado aos 1100 milhões de cada vez.

Passado pouco mais de um ano da data da injecção surpresa, nada havia mudado relativamente à situação descrita no relatório de gestão do BANIF do primeiro semestre de 2013: dos 450 milhões de recapitalização privada exigidos pelo acordo Estado/Banif, 150 dos quais a devolver ao Estado imediatamente após a administração de Luís Amado conseguir reunir os 450 milhões, ainda faltam 109,3 milhões. E não admira que assim seja. Quem, para além de um Estado nas mãos de criminosos, seria  suficientemente louco para arriscar tantos milhões num banco que apresentou prejuízos de 584 milhões de euros em 2012 e de 470 milhões em 2013? É que 584 mais 470 é igual a 1054 milhões, isto é, faltam torrar apenas 46 dos 1100 milhões em salários e pensões que o Governo injectou no BANIF. Quem e com que finalidade para comprar acções de um banco falido?

Resposta: outro Estado em mãos criminosas. Após aturadas negociações com o Governo local, o BANIF conseguiu vender 11% do seu capital a uma empresa da Guiné Equatorial, que não é um Estado qualquer. Trata-se, nem mais, nem menos, da ditadura mais antiga e uma das mais cruéis do mundo, onde todos os dias há prisões arbitrárias, julgamentos sumários, perseguições e execuções, uma cleptocracia do petróleo considerada uma das 10 mais corruptas do mundo, que acumula no seu vasto património de horrores a proeza de conciliar o maior rendimento anual por habitante em África e um dos maiores do mundo (28 mil dólares) com a pobreza extrema que impõe a 70% da sua população, que vive abaixo do limiar da pobreza (com menos de 1 dólar por dia). Apenas 44% da população tem acesso a água potável, 39% das crianças até aos cinco anos sofrem de desnutrição e 55% morrem de sarampo, diarreia e pneumonia, enquanto o filho e apontado sucessor do Presidente, playboy investigado nos Estados Unidos, França e Espanha, que aufere um salário de 5000 ao mês como funcionário ministerial no seu país, se passeia pelo mundo no seu jacto de 28 lugares e faz compras de mansões de vários milhões de dólares e dezenas de milhar de metros quadrados  na vizinhança de estrelas de cinema, com tanques de carpas imperiais que custam só em manutenção 7400 dólares por mês. . O presídio de Praia Negra, na Guiné Equatorial, onde são depositados os oposicionistas do regime de Teodoro Obiang que não são assassinados imediatamente, é descrito pela Amnistia Internacional e pela Human Rights Watch como um paraíso  "onde a tortura é tão endémica como as parasitoses".

Então e a contrapartida? Ninguém dá assim 133 milhões por 11% de um banco que não vale nem três caracóis. A Guiné Equatorial, país cujas línguas oficiais são o espanhol e o francês,  acaba de ser recomendado como membro de pleno direito da Comunidade de Língua Oficial Portuguesa, organização que tem nos seus estatutos como requisito obrigatório para todos os seus membros a observância das garantias do Estado de direito, o respeito pelos direitos humanos e a abolição da pena de morte. A Guiné Equatorial não preenche nem sequer o requisito da língua.
Rui BPN Machete deu hoje uma entrevista ao Público onde aborda o negócio que, ao conceder um visto gold aos negócios do  regime de Obiang válido para toda a CPLP, acabou por resolver o sufoco imediato do banco do colega bancário e antecessor na pasta dos Negócios Estrangeiros Luís Banif Amado. Diz o senhor ministro que "não temos razões para duvidar da palavra da Guiné Equatorial". Os portugueses têm todas as razões do mundo para assistirem quietos e calados a mais esta vergonha nacional que acontece a apenas dois meses de eleições que deveriam servir para pôr em sentido o arco responsável por estes e tantos outros negócios tão turvos como este, que se repetem na maior impunidade. Caso contrário, fica mesmo assim. "Não temos razões para duvidar da Guiné Equatorial". Os bancos e os bandidos que brinquem à sombra da nossa indiferença. Com o nosso dinheiro.



Vagamente relacionado: António Mosquito protagonizou dois grandes investimentos em Portugal nos últimos meses, mas levantam-se dúvidas sobre de quem serão os milhões... A denúncia é do África Monitor e foi relatada no site Maka Angola. Segundo aquela publicação, Isabel dos Santos terá optado "por não se apresentar como promotora" do investimento milionário no grupo de media que inclui o Diário de Notícias, Jornal de Notícias, TSF e outros órgãos de comunicação social. Em troca, António Mosquito teria direito a 10% do valor investido por Isabel dos Santos, que assim terá evitado “reações negativas internas” à “sua qualidade de grande investidora em Portugal”. Outra das razões para manter o nome da filha de José Eduardo dos Santos fora do negócio seria a de “não prejudicar a reputação [de Isabel dos Santos], que tem de selecionar oportunidades de investimento com base em critérios de pura racionalidade económica – ausentes no caso da da Controlinveste”.

1 comentário:

Gi disse...

Mais uma vergonha tão grande, tão grande que é um desespero.