quarta-feira, 19 de março de 2014

"Cortes cegos", segundo Macedo



O Zé tem mulher e três filhos. É o único que trabalha, logo, quatro em cada cinco dos que comem lá em casa nada pagam. Paga ele. O Zé teve um corte salarial daqueles à moda do Coelho em cima do corte que antes tinha provado à moda do Sócrates e não lhe restou outra que não a de fazer a vontade à Jonet: teve que cortar na comida. Os filhos, infantis, protestaram por agora se comer menos e pior. O Zé respondeu-lhes que não, que parassem de dizer disparates, e justificou: quatro em cada cinco dos que comem cá em casa não pagam. Os filhos riram-se e bateram com as mãos nas panças vazias para validarem a Brilhante argumentação do pai.

Mas e que raio é que tem a ver quantos pagam e quantos não pagam com a comida ser agora em menor quantidade e de pior qualidade? Nada. O Zé quis armar-se em Ministro. Por sinal naquele que se diz por aí ser o melhor Ministro da Saúde da galáxia. Diz Paulo Macedo que quatro em cada cinco utentes do SNS não pagam taxa moderadora para depois concluir que “não há disparate maior do que dizer que na Saúde houve cortes cegos”. A falta de medicamentos, de equipamentos que ainda funcionem, o racionamento de testes complementares de diagnóstico e até de água engarrafada para os doentes, os relatos do inferno vivido por doentes terminais aos quais os médicos se queixam de não terem nada para dar para atenuar as dores mais horríveis, os casos de doentes em estado crítico que andam pelo país a passear de ambulância por não terem hospital que os aceite, é tudo uma ilusão de óptica. Toda a gente sabe que cortes cegos é só a partir dos dez em cada sete utentes do SNS que não pagam taxa moderadora. Atenção que agora não é para rir. Este Ministro é medonho. Este Governo é assassino que mata com enorme sangue frio.


Vagamente relacionado: Em Janeiro e Fevereiro deste ano, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) recebeu 97 notificações de episódios de violência contra profissionais de saúde, acumulando em apenas dois meses quase metade dos registos verificados em todo o ano de 2013, revelam os dados disponibilizados no site da instituição. No último relatório sobre este tema (de 2011), os enfermeiros surgiam como principais vítimas e estavam sobretudo em causa situações de discriminação/ameaça, injúria e a pressão moral.
Ainda mais vagamente: Os portugueses estão a ir cada vez menos e cada vez mais tarde ao médico dentista. Em quatro anos, diminuiu em cerca de 30% a procura de consultas e tratamentos dentários, foi anunciado esta quinta-feira, Dia Mundial da Saúde Oral. Segundo o Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas “As pessoas fazem o mínimo. Resguardam-se para as situações de maior aperto, dor, grande desconforto.” Resultado? “É um barato que sai caro. Implica mais dor, mais patologia, mais absentismo e até extracções de dentes que seriam evitáveis”, diz.
E rigorosamente nada a ver com: Quando precisa de levar a filha a uma simples consulta ou ir buscar as receitas dos medicamentos, Ofélia Marques vê-se muitas vezes obrigada a percorrer a pé os cinco quilómetros que a separam de Pernes, a vila onde encontra o Centro de Saúde e a farmácia mais próxima. "Não tenho outra hipótese, porque não tenho transporte para a menina. Às vezes, ainda me oferecem boleia, mas a cadeira dela depois não cabe nos carros", disse Ofélia Marques à Rede Regional. Para regressar a casa, caminha de volta os cinco quilómetros a empurrar a cadeira de Patrícia, de 32 anos, que sofre de paralisia cerebral desde bebé, na movimentada estrada que liga Torres Novas a Santarém, e onde o perigo de atropelamento espreita a cada curva. Vaqueiros é servida apenas por um autocarro diário às 7h30 da manhã, a carrinha da Junta de Freguesia não está adaptada, os taxistas já evitam fazer este serviço e nem sempre a ambulância dos bombeiros voluntários de Pernes está disponível.


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