sábado, 8 de março de 2014

Cartas na mesa


Depois de, há um par de dias, o Governo ter assumido publicamente a transformação em definitivos dos cortes salariais que andou a vender como excepcionais e transitórios, para vigorarem apenas durante o programa a que chamaram de "assistência económica e financeira", é hoje a vez de Cavaco Silva assumir que também andou a enganar os portugueses.

Numa publicação distribuída gratuitamente com um semanário, Cavaco dissipa quaisquer ilusões sobre o abrandamento da austeridade  no período pós-troika: para além de admitir que a supervisão internacional só terminará em 2035, quando Portugal devolver 75% dos 78 mil milhões de euros do "programa de assistência", Cavaco ameaça que “Se Portugal se afastar de uma linha de sustentabilidade das finanças públicas, controlo das contas externas e estabilidade do sistema financeiro, suportará, de forma inescapável, novos e pesados custos económicos e sociais”. E vai mais longe ainda ao colocar a questão como "demasiado importante" para ser objecto daquilo a que chama "querelas político-partidárias".

Temos, portanto, em primeiro lugar, que entre ser Presidente de todos os portugueses e ser mais um representante de um ocupante externo que tem o país a saque e a sociedade portuguesa debaixo da sua agenda de concentração de riqueza, Cavaco Silva optou definitivamente pelo segundo. Assumido o papel, Cavaco ameaça com retaliações a qualquer esforço de libertação do jugo imposto pelos interesses que representa. Finalmente, Cavaco sugere que a partir de agora a política sirva para tudo menos para debater e dar respostas à pobreza crescente que anuncia para as próximas duas décadas. As cartas estão todas em cima da mesa. Agora, é arriscar para ganhar ou aceitar as regras e jogar para continuar indefinidamente a perder. Para além de todo o sofrimento dos últimos anos, já perdemos demasiado tempo, demasiados direitos e demasiado dinheiro. E, para quem lhes deu o benefício da dúvida, são eles próprios que o assumem claramente: tudo isto foi só um cheirinho do que ainda está para vir.



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