sexta-feira, 7 de março de 2014

Belmiro Vampiro e uma "produtividade" à maneira


O dono de uma das fortunas que mais cresceu durante os três anos em que salários e direitos laborais mais minguaram depois do 25 de Abril, a terceira maior de Portugal, Belmiro de Azevedo, escolheu o dia de ontem para agradecer os tempos de bonança ao Governo que finalmente assumiu que os cortes salariais que lhe alimentam a riqueza não são temporários e sim definitivos. Entre outras pérolas, diz o nosso Belmiro que “os salários em Portugal só podem aumentar quando os trabalhadores tiverem a mesma produtividade que, por exemplo, os alemães” e que “é impossível comparar os salários em Portugal com os de países como a Alemanha "pura e simplesmente porque os alemães, por hora, fazem três ou quatro vezes mais do que os portugueses".”.
É claro que Belmiro não disse que as empresas alemãs têm melhor organização e apostam na inovação tecnológica e que essa organização e inovação são da responsabilidade dos aprendizes de Belmiro, muito menos que estes nunca sentirão necessidade de as melhorar e promover enquanto puderem remunerar a sua aversão ao risco e à mudança descontando-a no salário que pagam aos seus trabalhadores. Nem que, em regra, ao contrário desta mentalidade negreira, a competitividade dos empresários alemães não assenta exclusivamente na matriz de salários baixos que Belmiro herdou de Salazar e que, como se verifica em mais esta intervenção pública, defende intransigentemente para poder continuar a enriquecer em função da exploração do factor trabalho, responsável pelo nosso atraso estrutural. Tão-pouco que produzir BMW, AUDI, BOSCH ou AEG não é exactamente o mesmo que vender latas de atum, camisolas de algodão, azeite ou vinho.
Mas Belmiro disse que numa hora os alemães – ou os portugueses que trabalhem na Alemanha – produzem três ou quatro vezes mais do que um trabalhador português que trabalhe em Portugal. Talvez até seja verdade que um BMW de 40 mil euros possa ser produzido com um terço ou um quarto das horas necessárias para produzir 20 mil latas de atum de 2 euros, ou que as horas de trabalho necessárias para produzir 200 garrafas de vinho de 5 euros ou 400 garrafas de azeite de 2,5 euros sejam o triplo ou o quádruplo das necessárias para produzir um frigorífico BOSCH de 1000 euros. O que de certeza absoluta não é verdade é que uma empregada de caixa de supermercado na Alemanha registe três vezes mais artigos numa hora do que uma colega sua que em Portugal trabalhe para o Continente do nosso Belmiro. E o nosso Belmiro paga-lhe um terço, menos 1000 euros que vão direitinhos para o seu bolso, dos 1500 euros do salário mínimo aprovado para vigorar na Alemanha a partir de 2015.
Não é por acaso que na Alemanha têm serviços públicos que os portugueses nunca tiveram, nem é por acaso que os pais alemães não têm que gastar um euro sequer com a Educação dos filhos até aos 18 anos e que recebam um abono de família de valor superior ao nosso salário mínimo por cada filho que tenham. O salário médio na Alemanha ultrapassa os 3 mil euros e os impostos e as contribuições para a Segurança Social que os alemães descontam sobre essa base salarial chegam e sobram para pagar tudo isso. Nós preferimos engordar e venerar Belmiros que choram actualizações salariais de 1 euro por dia, que aplaudem de pé qualquer redução do número de dias de descanso no segundo país que anualmente trabalha mais horas em toda a União Europeia, por sinal Belmiros que nem sequer pagam impostos sobre os seus lucros em Portugal. Estes Belmiros não estão cá para contribuir para a sociedade que os enriquece. Estes vampiros estão cá só para enriquecer. E para mandar umas bocas de apoio aos Governos que os mantêm a salvo de qualquer crise garantindo-lhes direitos especiais de enriquecimento.




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