domingo, 30 de março de 2014

Abaixo de medíocre



Orgulho-me de pertencer ao grupo de milhares e milhares de portugueses que consideram que Durão Barroso foi, é e sempre será um medíocre e que, sendo o medíocre que sempre foi,  o seu mandato como Presidente da Comissão Europeia nunca poderia ser muito melhor do que medíocre. Porém, eu, tal como os milhares e milhares de portugueses que me acompanham nesta opinião, nunca acompanhei Durão Barroso na política de sentido único de uma Europa que, ao deixar de ser a Europa dos cidadãos, começou a deixar de fazer sentido e começou a naufragar.

Sempre me posicionei nos antípodas das regressões sociais que na última década têm sido materializadas em legislações laborais que retiram remunerações e direitos aos trabalhadores para os oferecerem às entidades patronais respectivas, sempre manifestei a minha discordância relativamente ao desmantelamento de carreiras e aos cortes salariais na Administração Pública que se foram repetindo desde 2010, sempre estive contra os cortes cegos que amputaram os nossos serviços públicos da qualidade e da quantidade de outros tempos, contra a rarefacção das parcas protecções sociais que tivemos, contra a redução do investimento público que é motor do crescimento económico, contra as alterações à forma de cálculo das pensões de reforma que se foram tornando necessárias para reequilibrar o sistema que todas estas políticas desequilibraram ao induzirem as reduções dos salários que antes o equilibravam sem grande esforço. Nunca defendi que critérios como o limite de 3% do PIB ao défice orçamental  fossem favoráveis ao desenvolvimento do meu país, todo o contrário de favoráveis. Pertenço ao grupo dos milhares e milhares de portugueses que podem apontar a mediocridade genética de Durão Barroso sem que tal gesto realce a minha própria mediocridade, que todos nós a temos na nossa dose.

O mesmo não se pode dizer de alguém que, para além do todo que acima apenas se resume, até andou de braço dado com Durão Barroso a  cozinhar a aprovação sem discussão e sem consulta popular do Tratado de Lisboa que tornou estas e outras políticas que prejudicam o meu e seu país as políticas oficiais da União Europeia, um processo que terminou naquele abraço selado com um sonoro "porreiro, pá!" que ficará para a História como símbolo da mediocridade subserviente que marcou o "europeísmo convicto" de todos os Governos deste século. E ontem o  ex-primeiro ministro José Sócrates teve a infeliz ideia de dizer que Durão Barroso "teve um mandato medíocre à frente da Comissão Europeia", resumindo toda a obediência canina que sempre lhe moveu insultando quem ousasse criticá-lo e circunscrevendo qualquer remoque de consciência que porventura o atormente num "digo isto com tristeza, porque defendi a sua manutenção à frente da Comissão". E Sócrates fez muitíssimo mais do que isso.

Se Durão é um medíocre, e parece que estamos de acordo quanto a esse facto, que dizer de alguém que sempre obedeceu cegamente a esse medíocre? Há tempos, quando um jornalista o desafiou a reagir às provocações de José Mourinho, Cristiano Ronaldo respondeu simplesmente que não fazia parte do seu feitio cuspir no prato onde comeu. Intelectualmente, Cristiano Ronaldo estará uns furos abaixo de José Sócrates. Eticamente, depois da de ontem, o futebolista ficou uns furos acima do grande estadista-comentador. Ao menos o melhor do mundo na sua arte não se insulta a si próprio.

7 comentários:

jose neves disse...

"E ontem o ex-primeiro ministro José Sócrates teve a infeliz ideia de dizer que Durão Barroso "teve um mandato medíocre à frente da Comissão Europeia"

Daqui se infere que Sócrates teria uma feliz ideia se dissesse que durão era óptimo. Para Tourais o facto de Sócrates ter trabalhado com durão no conseguimento do que ele julgava ser o melhor para Portugal, mas que Tourais acha (agora!) que era-foi mau, o obriga para sempre a dizer o melhor de durão.
Segundo o pensamento puro de quem nunca teve de agir e amassar a ética pura com acção política prática claro que pode "apresentar-se" com esta integridade de falsa nudez à Tourais.
Sócrates era PM de Portugal e como tal tinha de trabalhar com os outros dirigentes europeus e mundiais e por maioria de razão com durão chefe da UE a que pertencemos. Ou Tourais acha que Sócrates devia, não concordando com a política de sú-cia de barroso ou fascizante de bush, os invectivar e recusar falar com eles? Cite lá, se conhece, algum dirigente que se recuse falar com outro dirigente ditador ou fascitoide nem que seja para o convencer tentar ser melhor.
Como pensa, também Mário Soares e todos democratas combatentes pela democracia, devem compara-se aos ceausescus que encontraram pelo seu caminho político.
Meu caro, assim, pela sua prosa, tudo indica que a sua pureza política é pureza e sê-lo-á sempre e somente porque, penso eu, por falta de coragem de tomar qualquer acção política que aja sobre os problemas da existência das pessoas. Prefere refugiar-se na discussão dos princípios absolutos da pureza filosófica com medo de ter, alguma vez, problemas morais de consciência.
Defensores de purezas absolutas ou para-absolutas já chega o pcp e be. E o pior é que tais idealistas de asolutismos quando tomam o poder para agirem sobre a vida das pessoas fazem delas escravos dos seus absolutismos indiscutíveis.
Os ideais absolutistas, tais como transparece de sua prosa acima, são mui perigosos.

Filipe Tourais disse...

Inferiu mal, embora quando era PM Sócrates e Durão até enjoavam com as trocas de elogios. Não, caro amigo, os Durões não passam de bons a maus consoante nos apetece e dá jeito. É claro que tinha que falar e trabalhar com eles. Mas dizer-lhes a tudo que sim, fazer o que agora critica no actual Governo, obedecer a quem agora diz ser um medíocre está para lá de medíocre. Sócrates apenas teria autoridade para o fazer se alguma vez tivesse tentado romper com a austeridade que já então nos era imposta e que sempre foi contrária ao interesse nacional. Independentemente do que diga de Durão, para não ficar na História como mais um medíocre, era dever de Sócrates ter-se batido por aquela Europa que nos prometeu ajuda na recuperação do atraso estrutural de 48 anos de ditadura. Nunca o fez, sempre aceitou tudo, sempre chamou de "demagógicos", "radicais", "irresponsáveis" e "sem sentido de Estado" a todos os que lho apontaram.

Anónimo disse...

Não são "milhares e milhares". São certamente vários milhões de portugueses que consideram Barroso um egoísta inútil. Não foi capaz de fazer qualquer coisa pela Europa e nada fez por Portugal (os interesses pessoais estiveram sempre em primeiro lugar).
O CR7, apesar de vir de um meio pobre, está (a todos os níveis) bem acima de Sócrates e Barroso. Só não tem uns canudos feitos "a martelo".

josé neves disse...

"Mas dizer-lhes a tudo que sim, fazer o que agora critica no actual Governo, obedecer a quem agora diz ser um medíocre está para lá de medíocre"
Bem, como pode afirmar que disse ou dizia a tudo que sim? E que obedecia a tudo a quem agora acusa de medíocre? Essa, evidentemente, é uma pura afirmação gratuita tão só fundada e ditada pela vontade de atacar Sócrates.
Quando se bateu junto dos chefes da UE pelo apoio ao célebre PECIV e, especialmente junto de Merkel, não parece que tenha dito sim a tudo, antes pelo contrário. O mesmo nas negociações do programa da troika (ver livro os Entroikados).
E porque só agora este ataque soez a Sócrates por Tourais? Que eu saiba na entrevista que deu ao Expresso(Expresso, penso)chamou estupor a Shauble e já por várias vezes criticou duramente Merkel pela sua política e não consta que Tourais tenha vindo, nessa altura declarar, por isso, Sócrates "abaixo de medíocre".
Mas porque lógica racional obscura uma pessoa por lidar com um medíocre ou grupos de medíocres se torna automaticamente mais medíocre que esses medíocres? Se eu tiver um patrão medíocre, que me dá ordens medíocres, eu serei obrigatoriamente mais medíocre que ele? Os portugueses que, na sua maioria actualmente, estão sujeitos à mediocridade (igual ou superior a durão) do actual governo tornam-se, por isso, mais medíocres que passos coelho?
Pelo mesmo raciocínio Sócrates não teria mais autoridade de criticar o que quer que seja porque na qualidade de PM e em função de Estado dialogou, negociou e aceitou o que achou ser o melhor para o Estado português nesse momento.
Caro, a sua ideia-proposição patente neste texto não tem ponta de fundamentação teórica, nem sequer no plano dos princípios absolutos, e muito menos no plano prático para não falar da ética de convicção e de pragmatismo que todo bom político deve ter em dose elevada.
Tomar e levar à letra uma existência de acordo com a sua proposição, seria a morte da comunicação entre os homens, a morte da civilização e o regresso à barbárie.

Filipe Tourais disse...

Mas o PEC IV era austeridade, da mesma que veio depois, da mesma que viria sempre depois porque austeridade gera austeridade. Voltou a dizer que sim e a dizer-nos que disse que não.

jose neves disse...

Há! grande caro, problema é, tão só, a austeridade que Tourais não queria, não quer nem aceita jamais.
Pois, foi precisamente porque todos não queríamos austeridade que nos venderam, em jeito de conto do vigário, a ideia de que ela não era necessária. E depois?
Bem, depois, caímos todos na austeridade pura e dura em dobrado, na austeridade selvagem. E agora?
Bem, agora, o Tourais atira a culpa da austeridade porque Sócrates aceitou as primeiras medidas de austeridade, o safado que, como sabe de certeza certa o Tourais, gera sempre mais austeridade.
Tourais tem três certezas científicas: 1)Austeridade gera sempre austeridade, independentemente de outras medidas paralelas e qualquer se seja o grau e forma como seja aplicada. 2)Daí decorre que Sócrates é um safado porque foi o incompetente iniciador da austeridade que, qual moto-contínuo, uma vez iniciada não mais para. 3)Um dirigente políco, mesmo no trato dos negócios mundanos dos seus povos, deve reger-se pelos valores absolutos das "ideias" platónicas e não pelos valores sociais relativos protagóricos.
Continue, meu caro, brevemente pode alcançar uma meta.
Adeus.


aceitou austeridade
qualquer tipo de

Filipe Tourais disse...

Caro amigo, perceba que o problema não é o Tourais, tão-pouco se o Tourais aceita ou não a austeridade. A austeridade é que não se dá nada bem nem com a economia, nem com a democracia. A escolha não será, portanto, entre austeridade ou austeridade em dobro. A escolha é entre austeridade e crescimento económico e vidas dignas. Ou a primeira ou os segundos. E não é o Tourais que o diz. É a História, são os livros.