quarta-feira, 19 de março de 2014

A voz do dinheiro



De passagem por Portugal, em entrevista ao Público, O ex-campeão do mundo de xadrez e dissidente russo Garry Kasparov compara o Presidente Vladimir Putin a Adolf Hitler e descreve a sua Rússia como feita refém por um gang de criminosos, uma oligarquia que tem em Putin o seu testa de ferro. Mais uma ditadura do dinheiro.

 Recuemos até 2007. O referendo realizado no último fim-de-semana na Crimeia é tão ilegítimo como aqueles que o mesmo Putin encenou nos territórios ocupados da Tchetchénia e da vizinha Inguchétia para obter vitórias legitimadoras do seu poder opressor, como o da Crimeia, igualmente na casa dos 95%. Em 2007, Putin foi depois considerado a personalidade do ano pela prestigiadíssima revista Time. Em 2014, hoje, a mesma imprensa, que antes o vendia como grande estadista, afoita-se a descrevê-lo como vilão, quem diria, apenas um par de meses depois de pintá-lo como seríssimo candidato a prémio Nobel da Paz deste ano.

Em 2007 ou em 2014, O Putin é exactamente o mesmo. Em 2007 ou em 2014, a imprensa também é rigorosamente a mesma. O que mudou, então? A disputa da Ucrânia, até agora nas mãos da oligarquia russa, pela plutocracia europeia. A direcção para onde corre o dinheiro deixou de ser aquela que mais agrada à ditadura do dinheiro que tem esta imprensa ao seu serviço para moldar as percepções da opinião pública que tem por missão capturar. E a ditadura do dinheiro sabe bem que esta guerra psicológica, que faz heróis e vilões, que dá a palavra a quem a apoia e a corta a quem a denuncia e que reproduz uma semântica que chama “ajuda económica e financeira” ao roubo do século lhes fica muito mais barata do que uma guerra convencional com tanques e com ogivas nucleares.
Regressando à entrevista que esta imprensa concedeu a Garry Kasparov para recolher um dos muitos depoimentos que só não foram publicitados antes porque o monstro Putin então estava do lado certo da divisão internacional da riqueza, o ex-candidato à presidência russa em 2007 não se limitou a satisfazer a encomenda da diabolização da personalidade desse mesmo ano da revista Time e do seu regime assassino. Kasparov usou o seu tempo de antena para nos recordar regras elementares que ultimamente andam muito caladas: uma primeira, que não se negoceia com terroristas; e uma segunda, que cada vez que se adia a resposta forte contra um ditador, o preço sobe porque ele não vai parar. Referia-se a Putin, mas assenta-nos que nem uma luva. Eles também não vão parar enquanto não conseguirmos reestruturar os juros e os prazos da dívida que os enriquece e de que se servem como instrumento para nos condenarem à escravidão até à eternidade.


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