quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O crime grego, capítulo III



Na Grécia, bem mais do que até agora por cá, o Governo  cortou, cortou, cortou. Cortou tanto que, para se ter uma ideia, neste momento, o valor da totalidade do seu défice orçamental e ainda mais mil e quinhentos milhões de euros corresponde ao todo que é integralmente desviado para pagar os juros da sua dívida. A brutalidade da austeridade imposta pela troika de credores externos atingiu um nível tal que, e é só um exemplo, há muitos mais, , segundo uma investigação da ONG Life Line, mais de metade dos idosos gregos deixou de ter rendimento que lhes possibilite garantir a sua sobrevivência alimentar. Os desempregados perderam o direito a assistência médica gratuita. A Grécia vive uma catástrofe humanitária criminosa que, tudo o indica, conhecerá em breve dias ainda piores.

O presidente do Eurogrupo, Jerome Dijsselbloem, admitiu nesta terça-feira em entrevista à RTL que a Grécia pode precisar de novos empréstimos. Fontes oficiais ouvidas pela agência Reuters falaram de um novo "resgate" no valor de 10 mil a 20 mil milhões de euros. No fim de semana, a revista alemã Der Spiegel informou que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, falou num terceiro pacote nesse valor, o qual poderia ser apresentado ao parlamento grego ainda antes das eleições europeias de Maio. Para cúmulo, o Wall Street Journal informou na semana passada que houve uma reunião secreta entre a troika, a Alemanha e a França para debater o terceiro "resgate". O diário financeiro norte-americano informou também que Yiannis Stournaras, ministro das Finanças grego, nem sequer foi convidado para o encontro. Não são conhecidas as conclusões dessa reunião, mas, noutra entrevista, Dijsselbloem insistiu que a Grécia deverá fazer mais esforços para cumprir as suas metas. Suas, do burocrata, bem entendido.

A Grécia, tal como todos os países capturados – o contrário de "resgatados" – pelos interesses do sector financeiro que a máfia liderada por Durão Barroso e Mario Draghi representa, poderiam estar a pagar juros muito mais baixos. Não há nenhum impedimento de ordem técnica que obste a que o BCE ceda liquidez a países em dificuldades à mesma taxa de juro a que a cede aos bancos que depois a utilizamespeculativamente para cedê-la  aos primeiros a taxas 10, 15, 20 vezes mais elevadas. Há gente a morrer de fome e por falta de assistência médica em resultado deste crime sem nome que pôs povos inteiros a pagar com o seu próprio sangue dívidas que foram e continuam a crescer em função do objectivo recapitalização da banca europeia. Entre vidas humanas e a voracidade do sector financeiro, estes senhores não hesitam. E tudo isto está a acontecer diante dos nossos narizes  na maior das calmarias, apesar do caso grego ser em tudo igual ao português. A maior diferença está nos dois anos que os gregos nos levam de avanço. "Portugal não é a Grécia", "Portugal no bom caminho" e outros slogans vazios de realidade dirigidos à vaidade e a egoísmos vários da grande maioria vão-nos fazendo cúmplices da nossa própria sentença.


Vagamente relacionado: O Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, de que o Hospital Distrital de Chaves faz parte, garantiu que contactou os cinco hospitais da região Norte e Centro que poderiam ter recebido, no sábado, um doente de 20 anos que, na sequência de um acidente de automóvel, precisava de cuidados de neurocirurgia e que acabou por só ter vaga em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, a mais de 500kms e mais de 6 horas de distância. (…) Segundo dados da Ordem dos Médicos, Portugal tinha em 2012 uma média de 3,3 camas por cada 1000 habitantes quando na OCDE esse número sobe para 4,9, na Alemanha ultrapassa os oito, e o recomendado pela Organização Mundial de Saúde é 4,5. No espaço de quatro anos o país perdeu mais de 1600 camas.


Ainda mais vagamente: Desde 2010, último ano antes da entrada do “programa de assistência financeira” em Portugal, o número de beneficiários de prestações sociais atribuídas pela Segurança Social caiu 10,9%, ou seja, 271.927 pessoas. Cingindo-nos apenas ao ano passado, o decréscimo foi de 48,8% (112.813 pessoas). Em Dezembro passado, mais de 440 mil desempregados não recebiam qualquer apoio. As regras mais apertadas na atribuição dos subsídios aprovadas em 2012 pelo Governo contribuíram para estes resultados, principalmente nos casos do abono de família e do RSI, com quebras de 224.524 e 95.8444 beneficiários, respectivamente, em relação a 2010. O complemento solidário para idosos foi atribuído a menos 25.100 pessoas, o subsídio de doença a menos 5.544 e as prestações de parentalidade a menos 2.922.

1 comentário:

CG disse...

"O Tartufo.

É senhor de um currículo invejável e membro dos conselhos de administração de vários bancos de dimensão mundial e consultor de outros tantos. Um autêntico super-homem.
Foi vice-presidente do Goldman Sachs para a Europa, entre 2002 e 2005 onde tinha a responsabilidade das “empresas e países soberanos” e, por isso, tinha a seu cargo vender o produto financeiro "swap", tão nosso conhecido, o que permitiu dissimular uma parte da dívida soberana e maquilhar as contas da Grécia. Para a Grécia, foi a desgraça, ele foi premiado com a presidência do Banco Central Europeu.
Dá pelo nome de Mário Draghi, claro, quem mais poderia ser?
Por cá também temos “técnicos” deste calibre, ou quase, como um tal de Constâncio, que era governador do Banco de Portugal e que se distraiu com a fiscalização do BPN. Para os portugueses ficou a factura para pagar, Constâncio foi premiado com a vice-presidência do Banco Central Europeu.
Quem se lhes seguirá, Vale e Azevedo?"