quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Não há propaganda grátis


Nove meses depois da última emissão a 10 anos, Portugal regressou aos mercados há duas semanas para pedir 3 mil milhões de euros emprestados a bancos e fundos de investimento. Se em Maio de 2013, na primeira emissão a 10 anos desde que estamos debaixo da pata da troika, o “êxito” custou aos contribuintes portugueses – e proporcionou aos especuladores – 5,669% em juros por 3 mil milhões, no “êxito” de 12 de
Fevereiro último o preço a pagar ficou fixado nos 5,112%. Os nove meses de brutal austeridade do ano em que, em média, cada 100 euros confiscados em sede de IRS foram esticados para os 135, terminam com uma emissão de dívida com uma diferença na taxa de juro de apenas 0,55%. Realmente pouco para um esbulho tão tremendo, um absurdo sabendo que, com mais esses 3 mil milhões, Portugal ficaria com 15,8 mil milhões de liquidez em excesso depositados no BCE a renderem praticamente ZERO, uma brincadeira sabendo que essa liquidez ociosa custaria 5,112% de 3 mil milhões ao ano, 153,6 milhões. Propaganda cara, este regresso aos mercados.
Trocando por miúdos, imagine o leitor que a 12 de Fevereiro último tinha uma carteira de empréstimos no valor de 13 mil euros, 13 mil euros que não lhe faziam falta nenhuma, 13 mil euros que depositados no banco não rendiam quase nada e 13 mil euros pelos quais pagava juros diferenciados consoante o tipo de empréstimo. Com toda a certeza que não lhe passaria pela cabeça contrair mais um empréstimo de 3 mil, ainda mais a um juro altíssimo de 5,112% que teria que pagar pelo dinheiro a mais que não necessitava. Ao Governo português ocorreu fazê-lo. E ainda se gabou do feito.
E a brincadeira hoje ainda ficou mais cara. Duas semanas depois, Portugal voltou aos mercados para amortizar dívida. Seria lógico que o fizesse, quer porque o excesso de liquidez existente é desnecessário e tem custos elevadíssimos, quer por haver nessa liquidez ociosa emissões de dívida a rondar os 7%, a tal barreira que, ao ser ultrapassada, escancarou a porta à troika. Surpresa: o tesouro recomprou duas linhas de obrigações, uma de 1026,6 milhões a 3,35%, que vencia em Outubro de 2015, e outra de 293,2 milhões a 3,6%, que vencia em Outubro deste ano. Livrou-se dos mais baratos (cerca de 46 milhões ao ano), manteve os mais caros (que custam pelo menos o dobro, 92 milhões). Sucesso, lê-se em toda a imprensa.
Voltando a trocar por miúdos, imagine o leitor que, sentindo-se a nadar em dinheiro e a pagar bem por isso, decidia amortizar 1300 euros ao somatório de empréstimos de 16 mil e podia escolher entre amortizar um empréstimo contraído num momento de mais aperto a 7% junto do agiota da esquina, o empréstimo contraído na brincadeira de há 15 dias a 5,112% ou amortizar empréstimos pelos quais apenas pagava 3,5 ou 3,6%. Obviamente que em princípio escolheria o primeiro por ser o mais caro, quando muito o segundo para não dar parte fraca e assumir o disparate de há duas semanas e nunca por nunca o terceiro, o mais barato de todos. O nosso Governo optou pelo terceiro. Outro enorme sucesso, para não variar.
No primeiro mês deste ano, as receitas obtidas com os impostos ascenderam a 1.231 milhões de euros, ou seja, um crescimento de 24,2% face ao mês de Janeiro de 2013. Os pensionistas viram agravado o confisco das suas pensões de reforma, embora grande parte apenas o vá notar depois das eleições europeias. Os funcionários públicos tiveram cortes salariais que chegaram aos 12% apesar de agora trabalharem mais 5 horas por semana. Não há tolerância de ponto no Carnaval, alegadamente devido à situação que o país atravessa. Pelos mercados, pela moral e pelos bons costumes. Saídas limpas para todos.

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