quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Gostei de ler: "Ucrânia: da prisão para a liberdade condicional"

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«Viver debaixo da bota russa não é, como tão bem sabem os ucranianos, pera doce. Mas a sua chegada à Europa, pela mão de gente em quem só por muita candura se podem depositar grandes esperanças democráticas, será um momento interessante de observar. Confesso que até eu fui surpreendido com a crueza com que as instituições europeias, o FMI e os Estados Unidos deram as "boas vindas" aos ucranianos.

A Ucrânia está em pré-bancarrota. Os créditos prometidos por Moscovo eram tudo o que lhe sobrava. Tem de pagar, ainda este ano, 13 mil milhões de dólares aos seus credores e a Rússia ia emprestar 15 mil milhões. A primeira tranche já tinha vindo. A nossa amiga Standard & Poor's explicou que sem o dinheiro russo o colapso é certo. Agora os russos estão hesitantes. Fossem os ucranianos como alguns portugueses isso devia ter chegado para comerem e calarem. Afinal de contas, quem paga a factura impõe a sua vontade e só um louco enfrenta quem lhe empresta dinheiro. Mas foi comovente ver quem trata como irresponsáveis os que aqui não querem trocar crédito por dignidade aplaudir a coragem do povo ucraniano na luta pela sua independência.

Porque a divida são os tanques e as ogivas nucleares do século XXI, mudar de aliados significará, para a Ucrânia, mudar de credores. E os novos candidatos já explicaram ao que vinham. Ainda o fumo dos pneus se via na Praça da Independência e já o FMI (e Olli Rehn, que logo fez coro com Christine Lagarde) explicava que só verão os dólares se fizerem "reformas económicas". Pode ser que estivesse a falar do combate à corrupção e aos oligarcas, o que seria uma autêntica revolução nas prioridades do FMI. Mas cheira-me que as reformas são as outras. As do costume. Ainda mais apetecíveis num país com a importância económica e estratégica da Ucrânia. Traduzido: passem para cá os vossos "ativos" que nós vos ligamos à nossa máquina de crédito.

Ainda a polícia e os paramilitares da oposição estavam frente a frente, atrás das suas barricadas, e já o Departamento de Estado dos Estados Unidos pedia um governo "tecnocrático, de unidade nacional". Um governo não eleito semelhante aos que existiram na Grécia e em Itália. E, pedindo-se que sejam tecnocratas e não políticos, acho que não sou bruxo se depreender que objetivo é que sejam estes a começar as tais reformas. Os ucranianos já fizeram a sua parte, ao pegar fogo a Kiev. Não me digam que agora também querem eleger o governo e decidir as reformas que se fazem? Deixem isso para os técnicos. Lá como cá, como na Grécia ou como em Itália, as eleições servem apenas para confirmar decisões inevitáveis. E apenas depois das decisões serem tomadas.

Esta forma de fazer as coisas é melhor do que violenta dominação russa? Os bancos que sugam os recursos públicos dos países europeus são menos assustadores do que as máfias e os oligarcas? Sim, claro. Mas convenhamos que é fraco o consolo para quem arriscou a vida em nome da democracia e da independência.» – Daniel Oliveira, no Expresso.


Actualização: O populismo no seu pior, a extrema-direita nas suas sete quintas. Os ucranianos preparam-se para escolher  os ministros do novo Governo pelo método braço no ar/palmas,vaias  na praça principal de Kiev ao final da tarde de hoje. Desenvolvimentos aqui e depois aqui.

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