segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Gostei de ler: "Como pensa Gaspar"



«Vitor Gaspar desvendou em declarações a Maria João Avillez (que deu um livro) e a Teresa de Sousa (que deu uma entrevista) o que pensa dos dois anos e meio em que esteve à frente do Ministério das Finanças. Como é evidente, pensa bem. E como é evidente merece ser contraditado.

1) "O programa de ajustamento português, de modo geral, foi, em meu entender, muito bem sucedido", diz Gaspar. Note-se o "de modo geral", que suponho excluir o facto da recessão ter sido muito mais longa do que o previsto, do desemprego ter subido a níveis impensáveis, e do desemprego jovem ser verdadeiramente explosivo. Danos colaterais, claro. Quanto aos resultados do ajustamento, agora foram necessários três anos de recessão para Portugal repor os desequilíbrios externos. Nas crises de 78-79 e 83-85, Portugal repôs esses mesmos desequilíbrios com apenas um ano de recessão. Não abona a favor da tese de um ajustamento muito bem sucedido.

2) Gaspar recusa aceitar que se enganou, que agiu mal, que previu mal, que errou, que não foi capaz. "Não vejo nenhuma razão para não dizer simplesmente: os limites iniciais do Programa não foram cumpridos". É uma linha de argumentação notável. Alunos que chumbam podem dizer o mesmo aos pais. Médicos cujos doentes morrem por erros clínicos podem dizer o mesmo aos familiares. Engenheiros que constroem pontes muito mais caras que o previsto podem dizer o mesmo a quem os contratou.

3) Gaspar diz que nunca houve incumprimento nem muito menos imcumprimento repetido porque "as metas iniciais do programa foram sempre renegociadas antes do momento em que o seu incumprimento se colocaria". Outra contribuição notável para o argumentário de milhentos profissionais. Quando for completamente evidente que não se vão cumprir as metas acordadas, mudam-se as metas de maneira a tudo bater certo. É o método de ganhar o euromilhões à segunda-feira. 

4) O desemprego é "a suprema preocupação e a prioridade máxima", diz Gaspar. Como?! Em que ponto do programa de ajustamento é que está inscrita esta preocupação? E em que ponto da aplicação do programa é que Vítor Gaspar tomou medidas para estimular a economia e travar o disparo exponencial do desemprego? Gaspar apenas abriu a boca de espanto quando viu os resultados que a sua política de busca draconiana dos equilíbrios financeiros estavam a ter sobre a economia real. Foi por isso que quando anunciou que tinha chegado o tempo do investimento ninguém o acreditou, como ele próprio reconhece.

5) Gaspar considera insultuosa a ideia de ser encarado como o quarto elemento da troika. Mas depois diz que as relações foram sempre boas com a troika e que "os nossos interesses estão, no fundamental, completamente alinhados com os deles" - a saber os credores internacionais e a troika. Pois parece do mais elementar bom senso admitir que, num país que está sob tutela internacional, obrigado a engolir até à última gota o óleo de fígado de bacalhau que outros lhe querem impor, pudesse existir alguma tensão e mesmo fortes divergências entre quem nos defendia e quem estava do outro lado da mesa. Pelos vistos, com Gaspar essa dicotomia nunca se colocou.
6) E é por isso que, como Maria João Avillez reconhece, Gaspar "fazia parte do 'clube', nunca deixou de o frequentar, guardou amigos. Em certa medida - ou em toda a medida? - era de 'lá'. Nós não sabíamos mas a Europa sabia. E não o iria perder de vista no Terreiro do Paço". Foi isso que aconteceu. A Europa mandou para cá alguém para tomar conta do remédio que ela nos queria aplicar. Em África aplicava-se a esta pessoa um nome pouco simpático. E agora que Gaspar nos deixou, o clube está a tratar de lhe arranjar um emprego simpático, onde se ganhe muito bem, onde as reformas nunca sejam cortadas, onde o seguro de saúde cubra todas as maleitas possíveis e imaginárias e onde nunca possamos dizer de Gaspar que ele vive acima das suas possibilidades.» - Nicolau Santos, no Expresso.

4 comentários:

luis tavares disse...

Novidade para mim...Não sabia que o gaspar pensava.

Anónimo disse...

Há só um ponto (o 4) em que Gaspar tem razão. O desemprego foi, e é, a prioridade máxima. Desde o início que apostaram num desemprego muito elevado como a melhor forma de retirar direitos e explorar ao máximo aqueles que ainda têm trabalho.

Filipe Tourais disse...

É ingenuidade crer que eles não pensam. Pensam e pensam-no muito bem. Encontraram a fórmula para enriquecer uma minoria empobrecendo uma maioria que ainda agradece por ser salva. E refiro-me obviamente a quem vota, quem não vota escolhe não contar para nada.

Anónimo disse...

Pegando no post anterior "era uma vez uma família de lombrigas" é altura de o mandar embora no cag... das 4. Depois daquele forte e grande abraço será que o António Vitorino deverá ir com ele? Tão amigos que nós somos. Estamos atulhados em tanta porcaria que isto já lá não vai com desparasitantes.
D'Albano