quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Austeridade: destruidora, mas a mais "credível"


Os cortes que vieram para ficar. No relatório sobre a décima avaliação do auto-denominado “programa de assistência”, o Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que “para atingir a meta do défice de 2,5% do produto interno bruto (PIB) e a saída do procedimento dos défices excessivos em 2015, as autoridades vão precisar de identificar medidas permanentes adicionais que correspondam a 1,2% do PIB (ainda mais 2070 milhões de euros). Além disso, será necessário fazer, nos anos seguintes, um esforço adicional de cerca de 0,5% do PIB (860 milhões) face às projecções de base para responder às exigências do tratado orçamental europeu”, a “regra de ouro” da ultra-austeridade que PSD, PS e CDS aprovaram no Parlamento para vigorar para todo o sempre. Como o FMI insiste em dizer que Portugal continua a ter um nível relativamente alto de despesa primária e como não há quem riposte com os mais de 8 mil milhões de euros que anualmente pagamos em juros, o FMI sente-se à vontade para impor mais cortes de salários e de pensões de reforma.

O povo é quem mais ordena. De acordo com um estudo realizado para a Faculdade de Direito de Lisboa pela eurosondagem, a percepção de 61,7% dos portugueses é a de que a austeridade está a "afundar o país económica e socialmente", 63,6% antecipam que essa austeridade "vai continuar por uns anos" e 49,3% são da opinião que não existem "propostas políticas credíveis" que possam indicar um caminho alternativo. Afundar, empobrecer, ver o país a auto-destruir-se será, portanto, a opção mais credível aos olhos da grande maioria. O discurso oficial da inevitabilidade está a vencer a batalha das percepções, a esquerda de palavra e de compromissos não está a conseguir articular um discurso alternativo convincente.

E é cada vez mais improvável que o faça. O PCP por insistir num modelo comprovadamente falido, que a esmagadora maioria rejeita, numa linguagem que repete clichés com 40 anos e em elogios às suas “democracias” norte-coreana, chinesa e angolana. O Bloco por se perder em delírios de inovação social e por dispersar a atenção geral, que haveria que concentrar nas respostas à pobreza, ao desemprego e ao défice de esperança, pelas suas causas intemporais mais ou menos fracturantes, repartindo ainda essa atenção por uma liderança que divide por dois a falta de brilho de cada um dos seus elementos.

À falta de melhor, Bloco e PCP vão assegurando os serviços mínimos de uma democracia incapaz de resistir a um sequestro externo que conta com a colaboração incondicional de PSD, PS e CDS. Mas precisamos de muito melhor. Falta-nos um partido de esquerda capaz, não apenas de articular um discurso que desmonte e pese as vantagens e as desvantagens da permanência num euro que, nas condições actuais, tem Portugal de pés e mãos atadas para retomar o caminho do progresso, mas sobretudo um partido que consiga comunicar as suas ideias com a mesma eficácia com que o fazem os partidos do chamado “arco”. Não seria má ideia aprender como se faz e adoptar o modelo comunicacional que, comprovadamente, melhor serve o objectivo de angariação do apoio popular que é indispensável para executar qualquer projecto político. A extrema-direita mais populista já está a fazê-lo em toda a Europa.
Por mais que a ideia desagrade, a política é cada vez mais um enorme espectáculo direccionado para uma plateia pouco politizada e com um enorme défice de atenção. E contra factos nem os melhores argumentos. A austeridade destrói-nos, mas é a opção mais credível aos olhos da grande maioria. Isto não é apenas um absurdo, é o fruto de um longo trabalho muito bem feito. Ou muito mal feito, se a perspectiva for a da ineficácia da oposição que o permitiu.


Vagamente relacionado: Segundo dados do Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia, somos o país europeu onde mais riqueza está nas mãos dos 10% mais ricos. Na prática, um décimo das famílias portuguesas concentra 27,3% do rendimento global amealhado por todas durante um ano. A percentagem tem vindo a aumentar e era, em 2011, últimos dados disponíveis, a mais elevada da União Europeia, ficando fica 3,4 pontos percentuais acima da média comunitária.

Ainda mais vagamente: No relatório da décima avaliação ao programa português, Bruxelas começa por assinalar que “desde 2010, Portugal registou um ajustamento significativo nos custos unitários de trabalho nominais”. Segundo os cálculos da Comissão Europeia, entre o primeiro trimestre de 2010 e o terceiro trimestre de 2013, os custos unitários de trabalho caíram 5,3%. Ainda não chega. No mesmo documento, a Comissão defende que, para colocar a taxa de desemprego e o endividamento externo - que não pararam de aumentar desde que os salários começaram a encolher  - a níveis aceitáveis, os salários médios em Portugal ainda deveriam registar uma descida adicional próxima de 5%.

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