quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sucessos e ajustamentos


Os dias do sucesso. Servido a rodos, num caudal impossível de rebater, alucinogénico. Olhamos para as televisões e jornais e a palavra aparece, repetida, insistente, impiedosa: sucesso. Olhamos à nossa volta e duvidamos da miséria, da desesperança, do desemprego e da desumanidade que testemunhamos com os nossos olhos, sem o auxílio das lentes de uma máquina fotográfica gigantesca que reduz tudo a um sucesso retumbante e inequívoco. O que vemos é cada vez mais diferente do que nos põem a ver.

Ajustamento. Anteontem, assim como quem não quer a coisa, assim como se não tivesse importância alguma, assim como se em nada estivesse relacionado com o desajustamento de salários cada vez mais mínimos, de contratos cada vez mais curtos e de um desemprego em máximos a obrigações de crédito cujo cumprimento requer o emprego, os salários e a estabilidade que o “sucesso do ajustamento” pulverizou, ficámos a saber de novos recordes no crédito malparado, com especial destaque para o novo máximo nos incobráveis no crédito à habitação. Em Setembro passado, mais de 124 mil famílias portuguesas tinham a prestação da casa em atraso. No total, no final de Novembro, os bancos tinham em carteira 17,4 mil milhões em incobráveis. Preocupante? Sucesso é sucesso. Ajusta-se de outra maneira.

Hoje, alegadamente para aproveitar os “bons ventos que sopram nos mercados”, o Governo português decidiu emitir entre 2 e 2,5 mil milhões de euros em dívida pública. Há pouco, a operação já aparecia na imprensa como um sucesso espectacular. Taxa de juro estimada para a operação: 4,6%, fora comissões a pagar aos incontornáveis Goldman Sachs, HSBC, Morgan Stanley, Barclays, Caixa BI e Societe Generale. 4,6% que superam em mais de 1% os juros impagáveis do empréstimo contraído junto da troika. E 4,6% que são 18,4 vezes os 0,25%que o BCE cobrou pelos milhões que emprestou aos bancos que se acotovelam para, com esses milhões, entrarem num negócio em que compram a 25 e vendem a 460, uma diferença que o ajustamento dos nossos impostos e serviços públicos irá pagar (diferença de 4,35% a multiplicar por 2,5 mil milhões gera um proveito anual de 108,75 milhões de euros).

 

Do mesmo ajustamento: o hospital Amadora-Sintra abriu um inquérito sobre uma das muitas “poupanças” na Saúde  que estão a condenar à morte um número indeterminado de portugueses. Apenas os casos mediatizados   são alvo de inquérito. Os Governos decidiram poupar centenas de euros em cada colonoscopia para gastarem largos milhares em quimioterapia. Duplo crime.
Ajustando ainda mais um pouco: o Governo aprovou nesta Quinta-feira novo aumento de um imposto permanente e nada solidário sobre os reformados, a que decidiu chamar “contribuição extraordinária de solidariedade”, e aumentará, também novamente, os descontos dos funcionários públicos para a ADSE, alegadamente para equilibrar as contas de um subsistema de Saúde que não é deficitário.

Bastante mais ajustado ainda: Ao contrário do que tem sucedido desde 2002, os casos de tuberculose registaram pela primeira vez em 10 anos um ligeiro aumento no ano passado, levando os especialistas a prever uma maior dificuldade do controlo da doença no futuro. A tuberculose é uma doença associada à sub-nutrição que se previne com rastreios que deixaram de fazer-se. “Poupanças”.

1 comentário:

fb disse...

Os dias do sucesso. Servido a rodos, num caudal impossível de rebater, alucinogénico. Olhamos para as televisões e jornais e a palavra aparece, repetida, insistente, impiedosa: sucesso. Olhamos à nossa volta e duvidamos da miséria, da desesperança, do desemprego e da desumanidade que testemunhamos com os nossos olhos, sem o auxílio das lentes de uma máquina fotográfica gigantesca que reduz tudo a um sucesso retumbante e inequívoco. O que vemos é cada vez mais diferente do que nos põem a ver.