quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sintomático


«O ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social afirmou que "é sintomático" que quem defendia que Portugal ia precisar de um segundo resgate diga hoje que o país tem de terminar o programa "de forma limpa, sem cautelar"», lê-se no I. Eles lá vão comandando a agenda mediática como querem e lhes apetece. Primeiro foi o segundo resgate que tinham que evitar. Depois, os resultados teimaram em revelar-se uma catástrofe que se foi agigantando, enquanto  a UE nada fazia para "acalmar" os mercados, e lembraram-se de vestir o segundo resgate de "cautelar" sem nunca dizerem concretamente qual a diferença entre os dois. Finalmente, a saída já poderia ser "à Irlandesa e, entretanto, mudaram-lhe o nome para " "saída limpa". E o país sempre a definhar, com uma dívida cada vez maior, cada vez mais impagável com a actual arquitectura do euro. Sintomático é que não haja um único partido que fale sequer em sermos obrigados a sair de um euro que, pela mão do arco da finança,  nos vai condenando a doses de austeridade reforçadas a cada ano que passa e, nessa medida, nos empurra para trás e nos obriga a percorrer o caminho do progresso que até aqui nos trouxe no sentido inverso. Sintomático é não discutirmos se devemos ou não permanecer no euro. Sintomático de um país sem uma esquerda realmente esquerda, organizada e à altura do momento histórico  que vivemos, capaz de mostrar que não existe apenas para colorir a paisagem. Segundo "resgate", "plano cautelar" ou "saída limpa"? Tanto faz. Estamos tramados à mesma. A austeridade e a  sua irmã gémea agenda de reconfiguração social vieram para ficar. Para memória futura, o tema que alimenta aceso debate público no momento em que escrevo estas linhas é  "praxe e suas degenerações".

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