quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014


A Pitagórica perguntou, o I publicou. Primeira pergunta: concorda com o chumbo do TC à intenção do Governo de roubar parte das pensões de reforma aos antigos funcionários públicos? Menos de metade concorda (49,9%). Segunda pergunta: prefere que o Governo reparta os sacrifícios por todos e aumente o IVA ou o imposto sobre os combustíveis ou prefere ficar de fora desses sacrifícios e que o Governo insista em ir ao bolso aos velhotes? 41,6% respondeu preferir que os velhos paguem por todos. Repare-se como, por exemplo, a tributação das grandes fortunas, a redução das rendas das PPP e dos monopólios da energia e dos combustíveis ou o aumento do IRC às grandes empresas, recentemente reduzidas por PSD, PS e CDS, ficaram de fora das opções de resposta dadas a um universo de inquiridos que, seja lá como for, deixou um forte sinal sobre o valor da solidariedade na sociedade portuguesa dos dias que correm.

E cá estamos nós em 2014, com o poder político e os média que este tem ao seu dispor a invocarem um alegado estado de excepção à democracia e a conseguirem potenciar o pior que há em cada um de nós, ou pelo menos numa parcela bastante significativa do todo que deixámos de ser. Sobre o perigo destas excepções e sobre a colaboração da comunicação social neste processo anti-democrático falou por estes dias a historiadora Irene Pimentel numa conferência que decorreu no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde: "estamos em transformação, sem quase darmos por isso, de uma democracia para ditaduras. Por exemplo, hoje em dia, não é preciso na Europa, ou em Portugal, instaurar a censura tal como ela existia na ditadura. Basta controlar os «mass media», pôr os jornalistas a ganharem pouco, a estarem disponíveis para tudo, etc, e, de repente, temos um pensamento único, sob a capa da pluralidade".

Sobre outro vértice desta mesma questão escreveu Daniel Oliveira, "o desamparo aprendido dos portugueses", um texto que é leitura obrigatória: "O psicólogo Martin Seligman desenvolveu, no final dos anos 60, uma experiência um pouco sádica mas muitíssimo interessante. Para ela usou dois grupos de cães. Explicado de forma tosca, o primeiro grupo de cães recebeu choques eléctricos, tendo a possibilidade de se livrar do sofrimento, coisa que rapidamente aprendeu a fazer. Um segundo grupo foi sujeito ao mesmo tratamento doloroso. Com uma diferença: aos cães era retirada a possibilidade prática de evitar essa dor. Naturalmente, porque têm capacidade de aprender com a repetição, a dada altura os animais deixavam de tentar fugir. Limitam-se a aguentar, estoicamente, o sofrimento que lhes era infligido. Numa segunda fase, os mesmíssimos cães, depois de sujeitos a esta aprendizagem - a de se libertarem dos choques eléctricos e a de aguentarem sem reacção esse inevitável sofrimento -, são postos nas mesmas condições: ambos se podem livrar do sofrimento. O primeiro grupo faz o que fazia antes: reage de forma a deixar de ser torturado. O segundo grupo, apesar das novas condições, também faz o que fazia antes: aguenta, apesar de poder fugir, a dor que poderia, afinal, evitar. E fica a apanhar os choques eléctricos como se não tivesse alternativa. Porque foi isso que aprendeu."

 Desejos de um 2014 com mínimos de humanidade.

 

1 comentário:

Anónimo disse...

Acho que a maioria dos inquiridos nem deve saber o que são as PPP e o IRC.
Bom 2014!