«O Governo, o PSD e o CDS, e
todos os apoiantes do “ajustamento” na versão troika-Gaspar-Passos, obtiveram
uma importante vitória política ao levarem o PS a assinar um acordo a pretexto
do IRC. Foi um dia grande. “Rejubilai”, dizem os anjos do “ajustamento”. Dizem
bem.
Nesse mesmo dia, os professores
contratados foram abandonados pelo PS, que apenas pediu uma pífia “suspensão”
da prova, e os trabalhadores dos Estaleiros de Viana, que marcharam pelas ruas
de Lisboa com as suas famílias, a caminho da miséria, não merecem nem um
levantar de sobrancelhas dos doutos conselheiros económicos do “líder” Seguro.
O PS, que tinha já enormes responsabilidades na situação actual de ambos os
sectores profissionais, agora mostrou de novo por que razão não é confiável
como partido de oposição, mas, pelo contrário, é confiável, pela mão de Seguro,
para lá de muitas encenações, para os que mandam em Portugal, sempre os mesmos.
É que o acordo sobre o IRC não é
sobre o IRC. O IRC, repito, foi o pretexto. Aliás, a pergunta mais simples a
fazer, a óbvia, aquela que a comunicação social, se não estivesse subjugada à
agenda e aos termos dessa agenda do poder político dominante, faria é esta: por
que razão é que um acordo deste tipo não veio da Concertação Social, mas de
conversações entre os dois partidos? Por que razão é que o Governo nunca esteve
disposto a fazer este tipo de cedências diante da CCP ou da UGT, já para não
dizer da CIP e da CGTP, mas está disposto a fazê-lo com o PS? Ou, dito de outra
maneira, que vantagem tem o Governo em fazer este acordo com um partido da
oposição e não com os parceiros sociais? Ou ainda melhor: o que é que o PSD e o
CDS obtiveram do PS que justificou este remendo, aliás, pequeno e de pouca
consequência, na sua política? É que, convém lembrar, o Governo não precisava
do voto do PS para passar esta legislação, e é por isso que o único ganho de
causa é o do Governo.
O acordo foi um acordo político
de fundo que amarra o PS a sistemáticas pressões governamentais e outras, para
que passe a ser parte do “consenso” que legitime a actual política. O que está
em causa é algo que seria, se as classificações ideológicas tivessem alguma
correspondência com a realidade, inaceitável por um partido socialista, como o
é para um social-democrata, moderado que seja. O sentido de fundo do
“ajustamento” está muito para além do resolver os problemas mais imediatos do
défice ou da dívida, mas traduz-se numa significativa alteração das relações
sociais a favor dos senhores da economia financeira, em detrimento daquilo que
a maioria da população, classe média e trabalhadores, remediados e pobres,
tinham conseguido nos últimos 40 anos.
O que marcará com um rastro
profundo Portugal para muitos anos é acima de tudo essa transferência de poder,
recursos e riqueza na sociedade. Ela faz-se pela mudança de fundo no terreno
laboral, com a aquiescência do PS – recorde-se que aceitou sem críticas o
acordo assinado pela UGT –, com a fragilização das relações entre
trabalhadores, o elo mais fraco, e o patronato, o esmagamento da classe média
pelo assalto à função pública, aos salários, reformas e pensões. A destruição
unilateral dos “direitos adquiridos” destinou-se não apenas a garantir essa
enorme transferência de recursos, mas acima de tudo a enfraquecer o poder
social dos trabalhadores, dos funcionários públicos, dos detentores de direitos
sociais.
No passado podia haver pobres,
estes tinham, porém, a possibilidade de ter uma dinâmica social e política para
saírem da pobreza, uma capacidade de inverterem as relações sociais que lhes
eram desfavoráveis. Eram pobres, mas não estavam condenados à pobreza. Era isso
a que se chamava “a melhoria social”, num contexto de mobilidade e num contrato
social que permitia haver adquiridos. Agora tudo isso aparece como um
esbanjamento inaceitável, e o que hoje se pretende é que os pobres, cada vez
mais engrossados pela antiga classe média, sejam condenados à sua condição de
pobreza em nome de uma crítica moral ao facto de “viverem acima das suas
posses”, perdendo ou tornando inútil os instrumentos que tinham para a sua
ascensão social, a começar pela educação, pela casa própria, e a acabar nas
manifestações e protestos cívicos, as greves e outras formas de resistência
social. É um conflito de poder social que atravessa toda a sociedade e que se
trava também nas ideias e nas palavras, em que a comunicação social é um palco
determinante, com a manipulação das notícias, a substituição da informação pelo
marketing e pela propaganda. E o PS escolheu estar ao lado dos “ajustadores”.
Pode-se argumentar que a
“cedência” do PS permitiu algum alívio às pequenas e médias empresas, e que por
isso há um ganho de causa. Talvez, e isso seria bom, se fosse apenas isso. Mas
o que o PS cedeu é muito mais do que isso: é um contributo decisivo para manter
a actual política em tudo o que é fundamental, a começar pela prioridade do
alívio às empresas e aos negócios em detrimento das pessoas e do consumo. O PS
enfileirou no núcleo duro do discurso governamental, mais sensível às empresas
do que às pessoas, aceitando que, a haver abaixamento dos impostos, ele deve
começar pelas empresas e não pelos indivíduos e as famílias, pelo IRC e não
pelo IRS e pelo IVA.
Eu conheço a lengalenga de que os
benefícios às empresas, à “economia”, são a melhor maneira de beneficiar as
pessoas, e que é a “vitalidade” da economia que pode permitir todos saírem da
crise. Em abstracto, poderia ser assim, no nosso concreto, não é. Chamo-lhe
"lengalenga" porque no actual contexto a inversão muito significativa
dos poderes sociais torna muito desigual a distribuição de benesses oriundas
deste tipo de medidas, reforça os mais fortes como um rio caudaloso e chega
tardiamente e sem mudar nada, como um fio de água, aos que mais precisam. E a
outra verdade que tem que ser dita é que este tipo de acordo no IRC vai tornar
mais difícil que haja uma diminuição significativa do IRS ou do IVA, ou seja,
quem vai pagar os benefícios a algumas empresas são outras empresas mais em
risco e as pessoas e as famílias.
Numa altura em que a campanha
eleitoral para as europeias e a, mais distante, das legislativas são já um
elemento central das preocupações partidárias do PSD e do CDS, o PS deu-lhes um
importante trunfo político, e um sinal de que não confia nas suas próprias
forças para ganhar as eleições e muito menos governar sozinho. Um acordo PS-PSD
feito pela fraqueza e assente na continuidade da política actual prenuncia
apenas que, seja o PS, seja o PSD, a governarem em 2015, cada um procurará no
outro um seu aliado natural, não para uma política de reformas, mas para
garantir a política que interessa ao sector financeiro, que capturou de há
muito a decisão política em Portugal.
O PS de Seguro mostrou que não é
confiável como partido da oposição e que ou não percebe o sentido de fundo da actual
política de “ajustamento”, de que este abaixamento do IRC é um mero
epifenómeno, ou, pelo contrário, percebe bem de mais e quer ser parte dela.
Inclino-me, há muito, para a segunda versão. Seguro e os seus criaditos
diligentes estão ali para servirem as refeições aos que mandam, convencidos que
as librés que vestem são fardas de gala num palanque imaginário. Vão ter muitas
palmas e responder com muitos salamaleques.
Estamos assim.» - Pacheco Pereira, no Público.
Estamos assim.» - Pacheco Pereira, no Público.
