Quatro cafés, dois restaurantes,
duas lojas de móveis, uma escola de música, dois cabeleireiros, uma farmácia,
um minimercado. Antes tinha mais lojas, duas de decoração, uma de tapeçarias,
outra de electrodomésticos e mais umas quantas que já não recordo. Fecharam
todas devido a falta de clientes. Os cortes salariais, os aumentos de impostos
sobre o trabalho, sobre o consumo e sobre a propriedade, a escalada de preços
de bens essenciais como combustíveis, electricidade e gás natural, todos eles
fornecidos por empresas mantidas à margem da crise pela assinalável
representação que registam nos partidos que têm sido Governo, reduziram o
rendimento que os clientes de todas estas lojas tinham disponível para consumir
e os resultados destas e de outras políticas erradas da última década vêem-se
no papel pardo que tapa as montras das lojas fechadas. As pessoas que nelas
trabalhavam deixaram de se ver por lá. A minha rua é assim, uma rua como tantas
outras.
Hoje, logo pela manhã, Nos cafés
de todas estas ruas, ouviram-se maravilhas sobre o último consenso alcançado
entre António José Seguro e os partidos da maioria quanto à reforma do IRC. “É
muito bom sinal que tenham chegado a acordo em matéria tão sensível” e “são as
pequenas e médias empresas que criam emprego”, vomitava um especialista em
domesticação aos microfones da Antena 1. Ouviram-no, sem sobressalto, proprietário
e clientes, habituados como toda a gente a estes “toda a gente sabe”. E, no
próximo ano, alguns destes últimos deixarão de aparecer com tanta frequência depois
de constatarem como o seu rendimento disponível sumiu em nova carga brutal de
impostos sobre o trabalho e fruto de
mais
cortes sobre salários e sobre pensões. Por essa razão, o dono do café verá
os seus lucros reduzirem-se novamente e, muito provavelmente, quer para reduzir
custos, quer porque o movimento não justifica ter uma empregada, não renovará o
contrato da rapariguita que ali trabalha. O mesmo para as lojas da vizinhança,
que os clientes deste e dos outros cafés visitam a seguir ao pequeno-almoço. O
mesmo para os funcionários dispensados pelas lojas de móveis, que deixarão de
ir almoçar ao restaurante. O mesmo para o filho do dono do restaurante, que já
não poderá frequentar a escola de música. O mesmo para o professor de música,
que já não andará lá pela rua a tomar café e a almoçar no restaurante.
António José Seguro acordou com a
maioria reduzir 2% o IRC a empresas que lucram milhões, num país onde o
trabalho e o consumo contribuem com mais de três quartos para a receita fiscal
e 19 das 20 cotadas no PSI-20 pagam impostos sobre lucros na Holanda. Aceitou
protelar para as calendas reduções no IRS e no IVA, tão brutalmente aumentados nos últimos anos. Em troca, a maioria aceitou
uma redução de 25 para 17%na taxa de IRC aplicável a lucros até 15 mil euros,
lucros esses que, para acontecerem, como vimos atrás, necessitam de clientes
com poder de compra.
Temos, assim, que, graças ao
último
consenso, uma pequena ou média empresa que sobreviva à diminuição do
rendimento disponível das famílias e a um IVA nos 23% irá pagar menos 1200
euros em IRC no próximo ano. São estes hipotéticos 1200 euros que Seguro alega
irão manter e criar empregos. Ao mesmo tempo, uma empresa que lucre, vá lá, 10
milhões de euros anuais (empresas como a EDP fazem lucros de 10 milhões em menos
de três dias), irá pagar menos 200 mil euros por ano graças à descida da taxa de
IRC dos actuais 25 para os 23%. O consenso de Seguro deu migalhas aos pequenos para
justificar as panificações inteiras que deu aos grandes. O consenso de Seguro acentua
ainda mais o desequilíbrio de uma fiscalidade que já sobrecarregava demasiado o
trabalho e o consumo para aliviar o capital. Mas um consenso é um consenso, os consensos
são importantes para o país e essas coisas. E Seguro mostrou ser um digno sucessor
aos comandos de um consenso que se vai reinventando para proporcionar a uma minoria
a riqueza consensualmente obtida a empobrecer a restante maioria. Esquerda consensualizada
e direita, arco da governação, não saímos
disto.
Vagamente relacionado:
No parecer à Conta Geral do Estado de 2012, o Tribunal de Contas destaca a
"omissão de 1045 milhões de euros por benefícios atribuídos a SGPS
(sociedade gestoras de participações sociais)", modelo de organização
usado por grupos económicos. A Administração Tributária contesta a
classificação de despesa fiscal e defende que estes valores de IRC não pago
resultam do regime especial de tributação dos grupos de sociedade que prevê
estas situações em caso de reinvestimento de lucros. Mesmo sem considerar estes
números, os benefícios fiscais concedidos às empresas em 2012, e relativos ao
ano de 2011, cresceram 91 milhões de euros, alcançando os 448 milhões de euros.
Em sentido contrário evoluiu a despesa com os benefícios fiscais dos
contribuintes individuais, em sede de IRS, que baixou 106 milhões de euros em
2012. (daqui)