quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Grancho fez o balanço


No final de novo braço de ferro entre o Governo e os professores, o balanço acaba por não ser nada difícil de fazer. Tão fácil resultou a tarefa que foi o próprio secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário a fazê-lo com notável mestria, brilhando em grande numa comunicação que foi breve e sem direito a perguntas dos jornalistas. João Grancho começou por lamentar os incidentes que ocorreram durante a manhã desta quarta-feira em algumas escolas, onde candidatos foram impedidos de realizar a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) e outros professores foram impedidos de as vigiar, concluindo com a informação de que o ministério vai agendar nova data para a realização da mesma. De nada serviu a tradicional mãozinha que os sindicatos afectos à UGT deram ao Governo na sua estratégia de dividir a classe, de nada serviu convocar centenas de suplentes para vigiar a prova, de nada serviu a estratégia de intimidação que Crato tentou ao enviar polícia de choque às escolas para receber os professores. A prova teve que ser adiada. Crato perdeu outra vez.

Qualquer balanço ficaria incompleto sem uma alusão aos incidentes que o já atrás sublinhado brilhantismo de João Grancho teve o cuidado de não se esquecer de referir: houve professores que furaram a greve e aceitaram ser cúmplices do Governo e vigiar a prova e houve professores que furaram o boicote e aceitaram submeter-se a uma humilhação para ganharem vantagem sobre todos aqueles que se recusaram e ficaram lá fora a lutar por todos, incluindo os próprios amarelos. É lamentável que a dignidade, o sentido de classe e todos aqueles valores que nos diferenciam dos animaizinhos não sejam avaliados para efeitos de ingresso na carreira docente. A escola deveria ser aquele lugar onde se aprende a ser gente com quem sabe o que isso é. Nuno Crato é capaz de ter alguma razão quando insinua que há professores que não têm os mínimos.

Reflexões a pedido


Acaba de ser divulgada a moção que servirá para renovar a liderança de Paulo Portas no CDS. Apela o nosso irrevogável à reflexão necessária em torno das três ameaças de bancarrota que a nossa Constituição não conseguiu evitar. É para já, chefe! Não é na nossa Constituição que figura a proibição que impede o BCE de emprestar aos Estados a liquidez barata que empresta ao sector financeiro. Não é na nossa Constituição que está inscrita a regra do tecto de 3% para os défices orçamentais que, conjuntamente com a proibição anterior, fazem países como Portugal presas fáceis desta agiotagem que o BCE alimenta, entre outros motivos, também para criar as condições ideais para implementar a agenda política de reconfiguraçãosocial que os últimos Governos vêm executando tão galhardamente à revelia da CRP. E não é a nossa Constituição que decidirá por nós se continua a haver alguma vantagem que justifique permanecer numa moeda única comprovadamente acima das nossas possibilidades de desenvolvimento enquanto sociedade e enquanto economia.

Por outro lado, e já que é Portas que toca no assunto CRP, era o que nos faltava agora que fosse a nossa Constituição a proibir os negócios submarinos que vêm enriquecendo alguns governantes e produzindo financiamentos partidários  à Jacinto Leite Capelo Rego. Para isso existe o Código Penal. Complementa-o a falta de meios e o exército de profissionais da gaveta que na Justiça trabalham para rentabilizar o emaranhado processual tricotado pelo arco dos negócios para produzir as legalidades, inconclusões  e prescrições que continuam a garantir muito boas vidas a tantos moralistas impolutos. Quem não os conhecer que lhes compre os missais. E o pior é que ainda há muito boa gente que o faz. Isto, sim, é que deveria ser objecto da mais profunda reflexão.