Aos 89 anos, Mário Soares vê a
sua intervenção na sociedade portuguesa nos últimos meses reconhecida com a
distinção pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal com o Prémio Personalidade
do Ano/Martha de la Cal deste ano. Nas reacções, quem diria, alguma
esquerda aponta para a sua direita e identifica sinais de incomodidade à
notícia e vangloria-se por Soares ser de esquerda. E este prémio deveria ser
factor de preocupação da esquerda, não da direita, ou não tivesse Soares a idade
que tem, ou a sua necessidade de intervir como interveio não tivesse nascido de
um apagão generalizado à esquerda, no meio do qual não lhe foi nada difícil brilhar.
Que mal estamos com um Seguro talhado à medida dos prémios “troikista bonzinho-moderadinho”
e “aquele menino bateu-me”. Com um Jerónimo de Sousa que faria de Seguro se a troika
fosse chinesa ou angolana. Com uma Catarina Martins que acumula prémios “o que foi
que ela disse?” e um João Semedo a quem uma boa dose de cafeína assentaria melhor
do que o prémio Xanax. Falta-nos esquerda no presente do indicativo. O prémio de
Soares, inteiramente merecido, constata-o mais uma vez. A esquerda passado mobiliza. A esquerda presente não sai de si mesma.

