Na última vez que apresentou previsões para 2014,
no boletim de Verão, o banco central apontava para uma contracção de 1,4% no
consumo privado em 2014. E apresentava este resultado sem levar em conta os
impactos de eventuais medidas de austeridade que viessem a estar, como estão,
previstas no Orçamento do Estado para 2014. Agora, mesmo sabendo que a austeridade
será ainda mais severa, incluindo cortes nos salários dos funcionários públicos
entre 2,5 e 12% e uma redução de 10% nas pensões da CGA—, o Banco de Portugal
aponta para um crescimento do consumo de 0,3%, justificando a sua previsão numa
segunda, a de que o emprego irá recuperar ligeiramente. Como não há duas sem
três, esta segunda previsão justifica uma terceira, a de que os portugueses
recuperarão a confiança e, como tal, quarta previsão, pouparão menos e
consumirão mais. Destas quatro previsões resulta ainda uma quinta, a de que o
PIB irá crescer 0,8% em 2014, isto apesar da redução prevista de 2,3% no
consumo público e contando com, nova previsão, uma recuperação espectacular do
investimento privado, da contracção de 8,4 % verificada em 2013para uma
expansão de 1% em 2014, quem sabe provocada pelo aumento de 5,5% previsto nas
exportações. Resumindo, o PIB vai crescer porque em Portugal o consumo variará
muito menos em função da massa salarial e muito mais em função de uma confiança
que não se deixa abalar nem com a simplificação dos despedimentos, nem com a
redução das protecções no desemprego. A
economia pode realmente tornar-se uma batata quando quem a cozinha recebe pela
tabela salarial do Banco de Portugal.
Vagamente relacionado:
O assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã, no Porto, que foi nesta
terça-feira homenageado na Assembleia da República, propôs trocar a medalha de
ouro por políticas que não causem mais estrago na vida dos que deixaram de dar
lucro. José António Pinto foi um dos homenageados no âmbito do Prémio Direitos
Humanos, anualmente entregue pela Assembleia da República, tendo aproveitado
para dedicar a medalha de ouro dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos
Humanos aos seus utentes e aos seus pobres. Perante uma plateia de várias
dezenas de pessoas, entre a presidente da Assembleia da República, Assunção
Esteves, o júri do prémio e vários deputados, o assistente social disse estar
disposto a trocar aquela medalha de ouro por outro desenvolvimento económico. “Deixo
ficar esta medalha no Parlamento se os senhores deputados me prometerem que,
futuramente, as leis aprovadas nesta casa não vão causar mais estragos na vida
daqueles que, por terem deixado de dar lucro, são hoje considerados descartáveis”,
disse José António Pinto, tendo recebido um forte aplauso. Aproveitou para
lembrar que enquanto fala, mais de 120 mil pessoas deixaram já Portugal, cerca
de meio milhão de crianças perdeu o abono de família, 140 mil jovens estão
desempregados e a maior parte dos idosos recebem uma reforma
miserável.
Ainda mais vagamente: No último
ano, os trabalhadores perderam em média 2,3% do salário efectivo e deram à
empresa uma semana e meia de trabalho a mais, sem qualquer retribuição
adicional. Já as empresas viram os seus rendimentos aumentar entre os 2100 e os
2500 milhões de euros, por via da redução dos custos com os trabalhadores e do
aumento dos dias de produção. Este é o balanço das alterações ao Código do
Trabalho, em vigor desde Agosto de 2012, e faz parte do relatório do
Observatório sobre Crises e Alternativas que será apresentado esta
quarta-feira em Lisboa.
