O gigante e o anão. Morre o
gigante, fica o anão. Um anão que liderou um Governo que não hesitou em cobrir Portugal de
vergonha na ONU ao votar contra a libertação do gigante quando este estava
preso por ousar lutar pela libertação do seu povo é o mesmo que emite agora uma
mensagem de pesar pela sua morte. O mesmo anão que recentemente dedicou
mensagens em tudo semelhantes à que hoje dedica ao gigante no momento das
mortes quer daquele ministro da ditadura entretanto tornado apresentador
televisivo, quer daquele outro verme colaboracionista da ditadura dos mercados
que ainda anda por aí a saquear o que a deixam. Cavaco Silva é um traste que
singrou à sombra da falta de memória do seu povo. Aqui a avivo. O anão não
perdeu a oportunidade para se pôr em bicos de pés outra vez.
Vagamente
relacionado: “Passos Coelho, na mensagem de condolências enviada na morte de
Mandela, designa-o como líder da resistência não-violenta contra o apartheid,
realçado o carácter não-violento da sua luta. Ora, não só isto é mentira -
Mandela defendia a luta armada e acabou condenado por terrorismo - como denota,
no mínimo, ignorância, e, na pior das hipóteses, alguma vontade de mudar a
História com o intuito de demonizar a violência tout court. A vida de Mandela
mostra que, contra a absoluta tirania de um regime racista, a violência foi não
só necessária como desejável. E quando teve de perdoar os seus algozes,
perdoou, liderando a maioria negra e evitando a vingança e um banho de sangue
contra a minoria branca que durante séculos oprimiu o seu povo. Lutou quando
teve de lutar, perdoou quando teve de perdoar. Fez o que era certo, quase
sempre, fosse quando optou pela violência fosse quando dela abdicou pela paz
entre povos. Essa foi a sua maior grandeza.” – Sérgio Lavos, no facebook.
Um pouco mais ainda:
“Li ontem que o Presidente da República português, Cavaco Silva, enviou uma
mensagem de condolências ao seu homólogo sul-africano, Jacob Zuma, pela morte
de Nelson Mandela. Nela, recorda Mandela como "figura maior da África do
Sul e da História mundial" e o seu "extraordinário legado de
universalidade que perdurará por gerações". E, acima de tudo, a sua
"coragem política" e "estrutura moral". O habitual.
É de estrutura
moral e de coragem política que quero falar. Estávamos em 1987, e o mundo
pressionava a África do Sul para libertar Nelson Mandela. Um homem que o
Departamento de Estado norte-americano considerava "terrorista" e que
Portugal não via com especial simpatia. Por essa altura, a Assembleia Geral das
Nações Unidas aprovou, com 129 votos a favor, um apelo para a libertação
incondicional de Mandela. Alguns, poucos, países estragaram a festa, faltando
com o seu voto. Um deles foi os Estados Unidos, então presididos por Ronald
Reagan. Outro foi o Reino Unido, que tinha ao leme a amante da democracia e da
liberdade, Margareth Tatcher. E o outro foi Portugal, que tinha como
primeiro-ministro o mesmíssimo Cavaco Silva que hoje se comove com as
"verdadeiras lições de humanidade" do homem que, por pressão
internacional, saiu, sem rancor, de 20 anos de cativeiro sem a ajuda de quem
hoje tanto celebra o seu legado.
Ontem, Ana
Gomes recordou outro episódio. Quando a antiga diplomata estava em Genebra,
houve, em 1989, uma votação das Nações Unidas sobre as crianças vítimas do
apartheid. As instruções que vieram de Lisboa, do governo de Cavaco Silva,
foram, mais uma vez, para votar contra. E foi esta, em geral, a posição
portguesa.
Bem sei que
havia, como ainda agora há, uma enorme comunidade portuguesa na África do Sul.
Tal como hoje, em Angola, isso, ou os nossos interesses comerciais imediatos,
ou as relações estratégicas, ou qualquer outra posição interceira, foram sempre
razão última para a nossa diplomacia jogar pelo seguro e calar a sua
solidariedade com quem sofre. Postura com que muita gente concorda. Estão no
seu direito. Escusam é de, no dia em que os heróis se finam, fazer telediscos
comentados sobre a coragem de quem nunca mereceu a sua solidariedade.
O que é irónico
é ver o mesmo homem que desalinhou com quase todo o mundo no momento em que Mandela precisava
da nossa voz, vir, neste momento, falar da coragem política, da estrutura moral
e das lições de humanidade de Mandela. Como se viu em 87, nem nascendo mil vezes
as poderia aprender.» – Daniel Oliveira, no Expresso.
