A 27 e 29 de Maio de 2012, Alves
Kamulingue e Isaías Cassule foram raptados pelos serviços de segurança de
Angola, no seguimento de uma manifestação de veteranos e desmobilizados do
exército angolano. Estiveram desaparecidos por mais de um ano. Porém, apesar da
tentativa de ocultação, transpirou para o conhecimento público no início do mês
de Novembro um relatório oficial do Governo que dá conta de que ambos foram
torturados e assassinados. Segundo o relatório, Alves Kamulingue foi objecto de
“treinos”, expressão usada pelos agentes da Direcção Nacional de Investigação
Criminal (DNIC) para se referir a torturas, sendo posteriormente executado com
um tiro na nuca. Quanto a Isaías Cassule, foi espancado durante dois dias, até
à morte. O seu corpo seria atirado para o rio Dande, na província de Bengo.
Estas revelações macabras
indignaram a sociedade angolana, que das mais diversas formas tem vindo a
protestar contra a crescente repressão, a tortura e o asfixiamento das
liberdades democráticas em
Angola. No âmbito da preparação de uma manifestação de
protesto contra o rapto e assassínio de Kamulingue e Cassule, oito militantes
do partido CASA-CE (terceira força parlamentar angolana) foram detidos pela
Unidade de Guarda Presidencial quando colavam cartazes. Segundo o testemunho de
um dos detidos, diante das ameaças de morte pelos agentes policiais e enquanto
eram transportados para destino desconhecido, Manuel Ganga tentou uma fuga.
Nesse momento, foi baleado por duas vezes, vindo também
a falecer.
Nós, portugueses, sabemos o que é
uma ditadura. Tivemos uma que durou quase meio século. Sabemos o que é a
repressão, as prisões por delitos de opinião, a tortura, as execuções sumárias,
as arbitrariedades e toda a espécie de abusos de uma oligarquia que enriqueceu
explorando todo um povo que condenaram à miséria, o medo. Lembramo-nos bem de
como Salazar tremia quando a ferocidade e os abusos do seu regime mereciam a
condenação de outros países e organizações internacionais. Recordamos bem como
tais mensagens vindas do exterior davam alento a quem resistia, mostrando-lhes
que não estavam sós. Entre os resistentes, tiveram fulcral importância os
comunistas.
Recordo-os porque hoje o mesmo
PCP que se orgulha do seu passado anti-fascista votou ao lado da esmagadora
maioria que se recusou a condenar os assassinatos dos três cidadãos angolanos
pela oligarquia, comprovadamente cleptómana e alegadamente marxista, de José
Eduardo dos Santos e a exigência da libertação de todos os presos políticos do
regime angolano, conforme proposto pelo Bloco
de Esquerda.
Dos demais partidos, tão
habituado que estou a vê-los invariavelmente disponíveis para venderem aos
bocadinhos e a preço de saldos até a própria mãe Pátria sempre que do negócio
lhes resulte algum proveito, não esperava nada. Ainda assim, houve um deputado
do PSD que se envergonhou de participar na votação, 6 deputados do PS que
votaram a favor e oito que se abstiveram. Mas esperava mais do PCP e dos Verdes,
que votaram ao lado de toda a direita contra a proposta, num gesto que, financiamentos
partidários à parte, sugere que os assassinatos são ou não condenáveis
consoante os assassinos ostentem ou não uma foice e um martelo na lapela. Irei
repensar tudo o que até hoje defendi relativamente a uma convergência à
esquerda que inclua os comunistas. Um dos meus adágios populares preferidos diz
“se queres ver o vilão, basta pores-lhe o pau na mão”. E já vi que me chegasse.
Fazendo exactamente o que fez, Salazar seria hoje um santo se tivesse sido
comunista.
