Paulo Portas acaba de apresentar
o seu guião
da reforma do Estado. Ficámos a saber que o Governo formado por dois dos
três partidos que negociaram o memorando, o tal que faria do memorando o seu
programa de Governo, afinal não negociou o memorando. Pudemos assistir a
manipulações grosseiras de números e de agregados, que fizeram os serviços
públicos pesar como chumbo e os juros da
dívida e das parcerias com privados leves que nem meia pluma. Tivemos a
oportunidade de nos rirmos com absurdos como uma "flexibilização" do
princípio da confiança que ou existe ou não existe. E, quer pela insistência na
necessidade de uma revisão constitucional, quer pela extensão das generalidades
que saíram da boca de Paulo Portas, deu para perceber que o seu guião da
reforma do Estado é um imenso "se": se PSD e CDS conseguirem entender-se com o PS
no ajuste de contas constitucional com o
25 de Abril que há tanto tempo se adivinha e se o actual Governo tivesse tempo
para o fazer antes de sair de cena, o Ensino público universal de qualidade, o
Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social seriam ou vendidos, ou concessionados,
ou subsidiados ou o que fosse para os pôr a enriquecer privados. Nada de excepcionalmente
novo, tirando um ou outro detalhe, como é o caso da assunção da intenção de vender
escolas da rede pública. Estamos na mão de piratas, o que também não é novidade
nenhuma. Se os deixarmos, e temo-los deixado, eles vão continuar a desmantelar o
que ainda não desmantelaram. E quanto mais desmantelarem, mais negros serão os números
que alegam como justificação mais do que óbvia para a necessidade de continuarem
o que ainda não terminaram. A apresentação foi basicamente isto. Segue-se a habitual
série de medidas em regime de conta-gotas e a constatação de que Paulo Portas voltou
a sair-se bem na pele do mensageiro dos horrores que nunca dá más notícias. Rescisões na Administração Pública, flexibilização dos vínculos, revisão das tabelas remuneratórias, "desburocratização, seja lá o que isso for, cortes para todos os gostos e com detalhes, é já a seguir: OE 2014.
Vagamente relacionado:
«(…) As "110 páginas úteis" do guião, como lhe chamou ontem, são de
uma pobreza inacreditável. Não é sequer um catálogo de pronto-a-vestir
político. É uma loja dos 300 onde, no meio de ideias copiadas, avulsas e
superficiais, encontramos um ou outro ponto que é possível debater, mas apenas
por causa do nosso desespero coletivo. O que resulta dali é tão-só uma
salganhada ignorante, uma coleção de chavões e banalidades que não são mais do
que a redação pueril de um candidato a uma juventude partidária que leu a
biografia de Hayek, a da Wikipédia. O célebre guião, este guião, esta coisita,
não é um ponto de partida. A ser qualquer coisa é um ponto de chegada. É o fim
da linha. É o epílogo que arrasa as últimas aparências que ainda sobravam sobre
este grupo de estagiários que o país teve a infelicidade de eleger. É a prova
documental de que o Governo não sabe o que está fazer – cumpre metas
contabilísticas impostas externamente –, e nem imagina para onde irá a partir
daqui.» (ler
artigo completo)
Ainda mais vagamente:
«Peguei do documento da Reforma do Estado, coloquei no tipo de letra,
alinhamento e espaços habituais em textos deste género. Em vez das 110 páginas,
35. Nos prazos que não cumpriu, nas fontes e números quase inexistentes para
justificar as afirmações que faz num documento que deveria ser importante e até
nos truques infantis para fazer a coisa parecer maior do que é, Paulo Portas
comporta-se como um aluno cábula espertalhão.» (daqui)

