segunda-feira, 28 de outubro de 2013

É a democracia, estúpido


Na primeira reunião do mandato, o novo executivo camarário de Braga, liderado por Ricardo Rio (PSD) anulou a decisão tomada em Maio pela anterior maioria (PS), contrariando uma opção que foi polémica por envolver edifícios que estavam hipotecados por familiares do anterior presidente da câmara, Mesquita Machado, por ser um negócio cujo interesse público é, no mínimo, duvidoso e por Mesquita Machado ter participado na primeira votação em que o negócio foi aprovado, no valor de 3 milhões de euros, apesar de estar legalmente impedido, uma vez que a transacção envolvia e beneficiava a filha. Para quem tinha dúvidas, aqui está a lei da limitação de mandatos a demonstrar a sua utilidade. Os animaizinhos que continuem a dizer que as eleições não servem para nada.

Por falar em becos sem saída

De acordo com o barómetro i/Pitagórica do mês de Outubro, se as eleições fossem hoje, o PS ganharia com 36,7% dos votos. Confirma-se toda a razão de António José Seguro em não dizer uma palavra contra a austeridade que está a destruir o país. Os portugueses contentam-se com a alteração do partido que a conduzirá e com a mudança do nome do Primeiro-ministro que será a sua nova cara.
Do lado das alternativas, o barómetro desmente aquele que a seguir à pesada derrota nas autárquicas disse que não havia motivos para alterar a liderança e a estratégia do Bloco de Esquerda. É o partido que mais cai, 2,1%, para  6,6%, uma queda de valor equivalente à subida dos socialistas. O PCP sobe uns ligeiros 0,1%, para os 13,2%. Somando PCP e BE obtemos 19,8%, bastante acima dos 10% de mandatos parlamentares que garantem o mínimo de deputados necessário para requerer a fiscalização sucessiva de uma norma legislativa.
Menos tranquilizadora é a soma dos três partidos do chamado "arco da governabilidade", que poderá rapidamente transformar-se no arco de uma revisão constitucional que torne qualquer aberração legislativa conforme com a lei fundamental: PS (36,7%), PSD 23,7%)e CDS (8,6%, a subir 0,5%) somam69%. Se as eleições fossem hoje, os três partidos do nosso rotativismo teriam votos suficientes inclusivamente para reduzir o número de deputados da AR, alterar a lei eleitoral e introduzir os círculos uninominais ou qualquer outra com o mesmo efeito de varrer do Parlamento Bloco de Esquerda e PCP. Os dois partidos da apesar de tudo esquerda de palavra continuam a adiar a convergência, o PCP  aprisionado aos seus dogmas e o Bloco a brincar às causas fracturantes e às lideranças bicéfalas, num momento em que os portugueses também brincam ao "os políticos são todos iguais" e ao "não há alternativas". Tudo o que venha a acontecer corresponderá a esta conjugação de vontades. E de falta delas.